A cama, ela e Watowl


Abri a janela devagar, esperando encontrar sabe-se lá o que; nem havia tanto perigo assim, mas seguro morreu de velho. No entanto, ao encostar por fim a aba direita à parede azul do meu quarto, algo pulou na minha direção, e precisei me controlar para não gritar. Ela estava dormindo, ainda. Olhei para trás, para as almofadas amontoadas no tapete no lado oposto ao que eu estava, e aqueles sentimentos reacenderam no instante de um único segundo fugaz. E se estenderam, como eu sabia que se estenderiam. Era assim todas as vezes que eu a olhava. Eu adorava isso. Voltando os olhos para a janela, lembrei-me (acredite, eu havia esquecido) de que algo havia pulado em mim. Levantei-me depressa, sacudindo a camisa (um tanto larga demais, como prefiro) e a almofada na minha cama se mexeu sem nenhum motivo aparente. Devagar, aproximei-me e larguei a mão por baixo e a suspendi de vez. Encolhida num canto, com as asas tremendo e os olhos arregalados, encarava-me uma coruja meio branca, meio caramelo, meio marrom. Com uma cautela maior do que eu estava sentindo no momento, avancei para ela, estendendo a mão. A coruja não recuou; coube na minha palma com um encaixe perfeito. Aproximei-a do rosto e nos encaramos por vários instantes, até que ela piou muito alto e ficou se balançando de um jeito estranho, alegre. Depois, com um segundo pio, se jogou contra o meu pescoço e esfregou várias vezes as penas da cabeça em mim. Um tanto assustado, ainda, cocei sua cabeça de leve e ela beliscou meu dedo. Era uma coruja estranha e sociável demais, eu sei. Dei-lhe um nome que estava guardado no meu bolso. A junção de duas coisas que eu gostava muito. Watowlmelon; Watowl, a chamei.


A Senhora, o Ódio e o Menino

    (Ou como você quiser arrumar)

- Mas ele me odeia...
- E quem um Dominn não odeia? - disse a senhora.
- A senhora.
- Não é verdade - foi o que ela disse, mas a risadinha desmentiu todo seu esforço - Dominn's são criaturas anti-sociais ao extremo. E quando digo "extremo", estou falando "pra valer". Já percebeu o grunhido que eles dão quando o vento passa pelas orelhas feiosas deles?
- Já, sim. E eles fazem aquela cara assustadora quando o sol brilha na direção deles.
- Exatamente.
- Então por que eles não te odeiam?
- Eles me odeiam, sim.
- A senhora está mentindo.
- Desculpe?
- A senhora está dizendo isso só para me consolar. Não pense que eu não vi aquela vez que aquele Dominn disse todas aquelas coisas bonitas para a senhora. Aquilo me pareceu muito amável da parte deles.
- Você está se referindo àquela ocasião à beira do lago Norte?
- Sim.
- Aquilo foi uma encenação.
O menino piscou duas vezes.
- Uma encenação?
- Uma encenação.
- Por quê?
- Por quê o quê?
- Não tente me confundir!
- Tudo bem, desculpe.
- Diga.
- Vou dizer. Aquele Dominn estava tentando saber como é não odiar alguém.
O menino pensou por um instante.
- Mas se era uma encenação, não tem como ele saber realmente como é não odiar alguém.
- Foi o que eu disse a ele, mas Dominn's não são bons em ouvir conselhos.
- Entendo.
- Satisfeito?
- Claro que não.
- Posso fazer uma pergunta?
- Pode.
- Como você sabe dessa ocasião à beira do lago Norte?
- Eu estava passando, oras.
- Você está mentindo.
- Estou?
- Está, sim. A estrada do seu caminho fica a Oeste, não a Norte. Você andou fazendo algo fora do permitido?
- A senhora disse que ia fazer uma pergunta, não duas.
- Ah, é.
- Mas acho melhor deixar claro que eu só estive na estrada Norte para ir até a estrada Oeste. A senhora sabe que elas tem uma conexão debaixo daquele monte Devaniano que corta todo o território.
- É, sei disso.
- Então a senhora anda ou andou fazendo algo fora do permitido?
- Isso significa que você estava fazendo algo fora do permitido?
- Não se responde a uma pergunta usando outra.
- Verdade.
- É.
- Sabe, menino?
- O que?
- Você é bom nisso.
- A senhora também.
- Obrigada.
- Não por isso. Mas sabe de uma coisa?
- Somente se você disser. Passei toda a minha vida desinteressada na arte Limesnt* e agora, quando isso se tornou realmente necessário, sou tão boa quanto um pedaço de pão. Aquela velha falta de planejamento.
- Entendo. Mas queria dizer que ainda acho que os Dominn's não odeiam a senhora.
- Quanto a isso, querido, só me resta lamentar.

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*Limesnt - Expressão utilizada para designar a leitura de mentes.


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