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O poema da casa vazia

Era uma vez uma casa
que de dia sorria.
Gargalhava e brincava, e
era só alegria.

E a tarde também
a casa Ninguém
vivia a sintonia.

Um sorria pro outro,
e era só alegria.
Surgia uma graça,
vinha então a pirraça,
desabrochava uma valsa,
e era só alegria.

Mas à noite,
a casa,
tão vazia e sem graça,
era vaiada na praça;
o inferno parecia.

Vinha uma nuvem cinzenta,
que de toda tormenta,
nem ao menos aguenta
da casa
a
sintonia.

Essa nuvem trazia,
desde os tempos de cria,
na testa, uma marca:
de amargura sofria.

Amargurada vivia,
e ia cega, vazia,
escurecer a casa,
escurecer meu dia.

E era sempre assim,
sempre assim,
todo dia.
Vivia bem a casa,
mas era só de dia.

Catarina prefere o mundo


Na busca por concentração, Catarina abriu a bolsa a procura de um remédio que pudesse lhe acalmar. Tateou às cegas, mas não encontrou nada se não o mundo de tralhas que carregava por todos os lados, há um bom tempo. Olhou para cima, em busca de alguma solução. Pois foi que achou um martelo, e com ele quis se resolver. Olha, resolução, olha, resolução. Catarina ajoelhou-se por um tempo, sorriu amarelamente e se pôs a gritar. Jogou pra fora toda aquela cor que lhe estava presa à garganta, agarrada à sua pele, arranhando-lhe tudo por dentro. A cor saiu rasgando tudo, rasgou o céu que achou pela frente, rasgou o véu que cobria as coisas. Catarina olhou para um instante, e Catarina descobriu o quanto era cega. Uma gargalhada escapou de dentro dela, de um dentro tão profundo que Catarina nunca havia tomado consciência. O fundo tornou-se inda mais fundo, mas evoluiu ao raso. E Catarina gritou novamente, sem querer gritar. Seu querer submeteu-se à desordem e ao não comando, e Catarina dessa vez sorriu. Tomou um susto quando o céu caiu sobre ela, e a chuva ameaçou derreter-lhe toda. Tremendo, Catarina levantou-se sobre as pernas, mas elas fraquejaram e se puseram a cair. Antes que caisse, no entanto, com um supetão sem precedentes, o céu puxou-lhe de volta, e Catarina foi erguida às nuvens, alheia a qualquer realidade. Mas o céu não quis carregar com ele tal responsabilidade, e Catarina foi arremessada de volta ao chão, onde bateu com força no nada; e o nada se dissolveu, e foi aí que Catarina veio ao chão. Não contente, Catarina ergueu os olhos para os lados e viu alguma coisa. Não uma só: duas coisas, lado a lado, de mãos dadas ali em frente. O mundo fez silêncio, mas o silêncio fez um pequeno esforço e conseguiu gritar. Catarina ouviu o grito, e essa distração bastou para que as duas coisas sumissem. O sumiço fez-se sorriso, e esse sorriso grudou-se ao rosto de Catarina. O mundo girou, e Catarina recebeu o impacto daquilo com maus grados, preferindo ficar alheia ao movimento. Aquela percepção acalentou o mundo de Catarina, e ela percebeu que possuia um mundo. E Catarina percebeu que poderia preferir. E preferindo, agora, Catarina retornou. Agora estava apta a ficar alheia ao mundo. Poderia preferir ficar alheia às realidades. Catarina desgrudou o sorriso, assumiu qualquer postura e recitou aos ventos:

Me deixo estar,
me deixo estar estando,
estando livre para preferir,
e preferir, vou preferindo,
sem chegar e sem sair.

Se eu não saio, não chego;
chegar eu não preciso.
Mas se quiser ficar aqui,
andando, sempre irei saber.

Se o mundo vem até mim,
é porque ele precisa.
Se não precisa,
a mim ele não vem.

Vou-me quando quero,
e quero quando vou-me.
Seu real é a loucura do meu mundo.
Não tenho os pés virados para trás,
mas ando confundindo.
Meu real é a loucura do seu mundo,
que se perde ao sorrir do sol
no mundo meu.

Luardil I

Sentei na janela.
Ela apareceu.
Vi que o dia sorriu
e a lua esmoreceu.

Sorri,
sorristes,
sorri, abriu.
A lua apareceu,
o sol partiu.

À noite,
ao dia,
se foi, sumiu.
Não vem porque desceu,
não vai porque feriu.

Setenta e cinco,
seu velho senil.
A lua esmoreceu
quando o dia se abriu.

A lua não diz
o que o sol não permitiu.
Agora vai fazer
o que nunca antes se viu.

Depois do amanhecer,
veja a ponte que caiu.
O sol já vai saber
que a lua,
pra sempre,
dormiu.

Sol amarelo

[leia como quiser, entone como quiser]

Estou apaixonado,
apaixonado pela vida.
Gosto de viver, de 
viver gostando
de tudo e
de nada.
E de tudo,
porque tudo também é
nada.

Nada me entristece o
suficiente pra que eu
perca o gosto de viver.
Nada, nada.
Estou sempre alegre porque
a alegria é minha e eu
sou a alegria.

Sou amarelo como a palavra,
como o "sim", como o amarelo,
como o sol, como o "2" e
como a felicidade, que
também é amarela
como eu.

Viver é a melhor
graça que uma
graça é capaz de
ser.
Porque não tem nada
tão bom quanto
a graça que
isso é.

E é uma graça
divertida, uma
graça encantadora,
radiante
como o amarelo
que eu
também sol.

Suspiro, e meu
suspirar é leve.
Lembro agora da
minha tia que
já foi. Não
sei por que, mas
lembro agora.

E o agora é
também amarelo,
tão amarelo quanto
alegria.
Alegria que é um
nome todo prosa e
todo próprio.
Próprio de mim que
sol amarelo.

Já é mais de
duas. Olha aí ele,
o dois. Olha o dois
que é singelo, que
é segundo, minuto
é.

Minuto não, já
são duas horas,
duas e meia,
dia trinta e um.

São duas horas, e
eu aqui.
Olho pra mesa,
vej'uma flor.
Que flor é essa?
É amarela.
Como eu, como
alegria, como se
vive. Como
eu. Que
sou amarelo.

A narrativa de Vera Vieira

Vera Vieira 
era uma mulher sem eira nem beira
que um dia foi numa feira
 pra vida tentar melhorar.
Chegou lá e viu alguém 
que também não via um vintém
há mais de dez anos brotar;
então ele disse:
"sai daqui, ô doideira, 
pois aqui nessa feira 
pra ti que não há lugar!".

E então Vera Vieira 
era uma mulher sem eira nem beira
que um dia foi ao campo pra vida tentar melhorar.
Chegou lá e viu, num canto,
encolhido dentro de um manto,
sob a sombra de um 'por enquanto',
um rapaz desabando a chorar.
Aproximou-se, espiando,
recuou, no entanto,
pois foi que ele achou de gritar:
 "sai daqui, ô desgraça, 
que aqui minha vida é de graça, 
já sujei foi meu nome na praça, 
e a ti que não vou ajudar!".

E então Vera Vieira, 
uma mulher sem eira nem beira, 
cuidou de vagar pelo mundo, tentando uma vida arrumar.
Amarrou fita no braço, 
arrumou um rapaz do cangaço, 
pegou muito boi pelo laço,
e um concluir dominou seu pensar:

"Passei pela feira,
levei foi uma boa rasteira,
depois fui ao campo,
pra vida tentar melhorar.
Lá um rapaz, no entanto,
ao invés de secar o meu pranto,
tratou de negar-me um encanto,
e mandou, como uma vaca, ir pastar.
Passei fome,
passei frio,
passei dias e dias sob um sol cruel e ardil.
Mas uma vez ao relento,
com o céu de testemunho atento,
lamentei por ter tanto talento
pra minha vida poder arruinar.
Vou-me daqui, correndo,
pois é noite e ninguém tá vendo,
assim não posso atrapalhar."

Vera Vieira,
a mulher sem eira nem beira,
com uma lágrima de bebedeira,
morreu na última terça-feira,
sob a égide lunar.

Consequências da reflexão

.

Um dia vi flores no lixo
e fiquei sem entender
como tanta praga no mundo
vive dizendo sofrer.

.

O abismo

O pior ali era o branco. O branco, o branco. O branco tão branco e tão assustador. Aquele branco por todos os lados. Não me faça voltar pra lá! Mas é o branco que está aqui, e o branco não ouve. O branco não perdoa, não redime, não acolhe. Ah, angústia. Quero arranhar as paredes, preciso arranhar algo. Preciso cortar. Preciso cortar. Uma tesoura! É o branco que está aqui, e o branco não ouve. O branco é mau. O branco é pior que o preto. O preto te traz de volta pra si. Faz voltar, e voltar. E voltar. E no preto você se volta; você se olha. E tudo em você é preto, só preto, e é aí que você consegue. Mas o branco força a sua saída. Você não quer voltar, não quer. Mas você tem. Não! É o branco que está aqui, e o branco não ouve. O branco é branco, e não permite o preto. Mas você quer o preto. Você quer você. Você se quer, e você é o preto. E tudo em você é preto, só preto, e vai ficando preto. O branco tenta. Não! Você não é tão forte assim. Não! Você tenta. Tenta, tenta. Vá para o preto, vá até o preto. Entre, entre. Volte. Não! É o branco que está aqui. Volte! Preto. Preto e só preto, sem branco. Vê? Consegue? Tomou a consciência num susto, e viu-se em si. Viu-se voltado para si. Ali é tudo preto, tudo você. E o medo do branco? Nada. Ali é só você. Olhe para os lados e se veja. E se veja. E se volte. E se veja. E se viu. Estava diante de si. O que seria agora? Que seria? Que será? Será eu, será você. Você? Eu. Se olhe, me olhe. Algo errado? Olhe de novo. Onde está você? Você sou eu? Você sumiu. Estou aqui. Você se perdeu, você se perde. Você não é ninguém. Preto. Um outro preto, um preto estranho. Você não é ninguém. Preto! Preto! PRETO! Ah, angústia. Quero arranhar as paredes, quero cortar algo! Branco. Branco. Não, não. Preto. O outro preto, o primeiro preto. Não esse: o outro! Volte! Olhe para si! Olhe! Não quer, não é? Não quer! Se não quer, te mostro outra coisa. Vê ali naquele canto? Vê aquela felicidade, não vê? Vê! Sinta. Sinta. Você não pode sentir. Não pode sentir. Então foge. Foge e se deixa fugir. Deixa que o façam fugir. E foge. E foge dela, e ela foge de você. Foge de você assim como o amor, ali naquele outro canto. Vê? Vê! Ele foge de você. Foge porque sabe que tem que fugir. Foge porque você foge. Foge porque tem que fugir. Porque você não é nada. E se perde de novo. E se perde. E se perde aqui, e se perde lá fora. Lá fora onde tudo é perdido. Onde tudo está perdido. Você se perde com os outros. Você se perde mais que eles. Você não serve. Não serve pra eles. E nem pra si. Lá fora, você não serve nem pra si. Não serve, não serve. Não serve porque você se perde. Se perde. Branco. Se perde no branco. No branco, no branco. Se perde no branco porque é o branco que põe tudo a perder. O branco. Não! Você não quer. Você luta. Você tenta lutar. Mas você é fraco. O branco. O branco, o branco. O branco tão branco e assustador. Você não quer! Não! Você não quer! Não quero! Mas é o branco que está aqui. O branco não ouve.


Dez pras onze

Acho que a saudade que eu tenho do ano de dois mil e onze nunca vai ser superada. Nunca, mesmo. Dizer que foi mágico é muito pouco... Extremamente pouco. É uma saudade tão estranha... Tão grande, tão pontuda, tão amarelo-reluzente. Dois mil e onze reluz tanto na minha cabeça... Reluz em formato de túnel. É preto e tem um túnel de raios amarelos, de onde vêm todos os sentimentos possíveis. E é muito confuso. É muito confuso. Mas é bom. Gosto de sentir toda a mistura de lembranças. É excelente. Dá um calorzinho, um pensamento de "Ah, poxa vida", e eu me sinto frágil; tão frágil que me agarro às paredes do túnel, sempre. E essas lembranças vêm e voltam em um mesmo segundo. Não é algo que se estenda por um dia inteiro; não chega a completar dois minutos. Mas é tão forte que, sei lá. Sei lá. Foi um ano de experiências incríveis. Conheci e reconheci um bom número de pessoas impressionantes; impressionantes dos dois extremos. Viajei pra lugares fantásticos e experimentei algo tão novo que me surpreendi com a maneira com que lidei com a situação. Me roubaram um órgão e uns muitos sentimentos e, poxa vida, foi fantástico como não havia sido até então. Em dois mil e onze estão vários dos melhores minutos que eu já vivi. Fui tão feliz e triste, tão responsável e vagabundo. Experimentei o melhor e o pior de cada um com quem estive, e acho que esse seja o ponto principal da beleza que foi aquele ano. Senti tanto cada pessoa que esteve comigo, de uma forma tão natural e simples, que acaba fazendo falta, não sei exatamente o quê. Nunca tinha sido e estado tão vivo. E foi realmente o meu ano, como eu tinha dito no final de dois mil e dez. Dois mil e onze (2011) reorganizado, pode ser 21/01, uma das datas do meu aniversário. E foi... Dois mil e onze foi meu, e eu fui dele, de um jeito que, poxa vida, sei lá.


O vento e a sua cota

-
O fracasso me subiu à cabeça.
O fracasso me subiu à hic! 'beça...
O fracasso me subiu a beça.
O fracasso hic! subiu a beça...
Hic! fracasso hic! a beça.
Roarrrr...

Bocejo.
G o t e j o
e gracejo,
desejo e, no ensejo,
beijo.

O vento.
O vento de cores frias.
O vento tem cores frias, e sons distantes.
Um rosto tem dois lados;
de um deles o sol e seu calor,
               do outro, depravado,
             o furor,
       do amor desejado.


E frio.
O vento é frio.
A morte é fria.
A morte é fúria.
Mas acalma.
Acalma a alma,
Acalma.
Acalma como o vento.

Que 
caiu.
Feriu
e grunhiu,
m a s s e n t i u,
m a s p a r t i u,
m a s c a i u.
De novo.


E o motivo é sabido:
caminhar não vale a pena.
E não o sei.
Vem aqui que eu te amo;
saber, também não sei.
Falar, também não sei.
Pensar, soar, mostrar,
Dotar; só me vem um esgotar
que de falar já me desbota,
como o vento e a sua cota
de cores frias.
De cores frias,
De cores frias e furiosas,
de almas furiosas,
de almas frias,
de almas de vento frio,
do vento frio e de sons...
De sons...
Daqueles distantes; bem, bem
dis t a n tes.

Como (não) criar o seu bebê - O Discurso de Agradecimento

   Vocês criaram um monstro.
   Agradeço ao Sistema, à sociedade que engole, que atura e suporta. À televisão, à internet e ao Sistema, que indica, insinua e força. Agradeço à moral e às leis, que me obrigaram a conviver com a mediocridade em silêncio, todos os dias. Deixo também meus sinceros e entusiasmados agradecimentos ao governo, tão esperto e safo, que corrompeu a minha mecanização. Obrigado, convívio social, por criar a revolta, a insatisfação e o desprezo pela alienação; sem você, não teria visto e aprendido na prática os discursos alheios e os meus próprios, a respeito de todo esse entulho. Não poderia esquecer também da opressão e do poder fenomenal que a sociedade exerce sobre um indivíduo, como Durkheim ensinou: tenho fortes inclinações a concluir que esse foi o principal ingrediente da mistura terrível que resultou em mim.
   Devo, é claro, comentar com vocês que todos esses favores são vivos e acontecem a todo tempo. Não serei o Capitão Óbvio, todos sabem disso. Mas todas essas dádivas coercitivas é que me transformaram. Portanto, senhoras e senhores, talvez seja necessário repensar alguns pontos desta prática. Longe de mim querer dar palpite nessas tão bem desempenhadas práticas. Longe de mim. Mas não está funcionando. Que falha eu sou. Que falha eu e milhares de pessoas somos. Peço desculpas por não servir; talvez seja essa a explicação para a posição social em que me colocam sempre que abro a represa (que chamo de boca). Sou tão errado. Mais uma vez peço desculpas. Sou uma aberração, um bicho de sete cabeças, tão incoerente e deslocado que mereço a repulsa.
    No entanto, srªs. e srs., talvez seja necessário também que eu diga mais algumas coisas, alertá-los. Eu não sou o único. A não ser que tomem uma iniciativa mais intensa, alguma coisa vai acontecer. As outras aberrações que existem por aí (e por aqui) irão se levantar. Façamos alguma coisa. Esse marasmo arrebata a minha cabeça até as águas profundas do desespero (perdoem esse acesso de criatividade; é difícil controlar). Façamos alguma coisa. Quero me juntar a vocês, nessa tentativa de tapar os buracos que foram criados. Vamos, juntos, socar, entocar e esconder todos esses monstros que surgiram dessas falhas que não se sabe de onde vieram. Façamos alguma coisa. Precisamos fazer alguma coisa. Um monstro e uma aberração não são diferentes até que assumam suas próprias posições.