O pior ali era o branco. O branco, o branco. O branco tão branco e tão assustador. Aquele branco por todos os lados. Não me faça voltar pra lá! Mas é o branco que está aqui, e o branco não ouve. O branco não perdoa, não redime, não acolhe. Ah, angústia. Quero arranhar as paredes, preciso arranhar algo. Preciso cortar. Preciso cortar. Uma tesoura! É o branco que está aqui, e o branco não ouve. O branco é mau. O branco é pior que o preto. O preto te traz de volta pra si. Faz voltar, e voltar. E voltar. E no preto você se volta; você se olha. E tudo em você é preto, só preto, e é aí que você consegue. Mas o branco força a sua saída. Você não quer voltar, não quer. Mas você tem. Não! É o branco que está aqui, e o branco não ouve. O branco é branco, e não permite o preto. Mas você quer o preto. Você quer você. Você se quer, e você é o preto. E tudo em você é preto, só preto, e vai ficando preto. O branco tenta. Não! Você não é tão forte assim. Não! Você tenta. Tenta, tenta. Vá para o preto, vá até o preto. Entre, entre. Volte. Não! É o branco que está aqui. Volte! Preto. Preto e só preto, sem branco. Vê? Consegue? Tomou a consciência num susto, e viu-se em si. Viu-se voltado para si. Ali é tudo preto, tudo você. E o medo do branco? Nada. Ali é só você. Olhe para os lados e se veja. E se veja. E se volte. E se veja. E se viu. Estava diante de si. O que seria agora? Que seria? Que será? Será eu, será você. Você? Eu. Se olhe, me olhe. Algo errado? Olhe de novo. Onde está você? Você sou eu? Você sumiu. Estou aqui. Você se perdeu, você se perde. Você não é ninguém. Preto. Um outro preto, um preto estranho. Você não é ninguém. Preto! Preto! PRETO! Ah, angústia. Quero arranhar as paredes, quero cortar algo! Branco. Branco. Não, não. Preto. O outro preto, o primeiro preto. Não esse: o outro! Volte! Olhe para si! Olhe! Não quer, não é? Não quer! Se não quer, te mostro outra coisa. Vê ali naquele canto? Vê aquela felicidade, não vê? Vê! Sinta. Sinta. Você não pode sentir. Não pode sentir. Então foge. Foge e se deixa fugir. Deixa que o façam fugir. E foge. E foge dela, e ela foge de você. Foge de você assim como o amor, ali naquele outro canto. Vê? Vê! Ele foge de você. Foge porque sabe que tem que fugir. Foge porque você foge. Foge porque tem que fugir. Porque você não é nada. E se perde de novo. E se perde. E se perde aqui, e se perde lá fora. Lá fora onde tudo é perdido. Onde tudo está perdido. Você se perde com os outros. Você se perde mais que eles. Você não serve. Não serve pra eles. E nem pra si. Lá fora, você não serve nem pra si. Não serve, não serve. Não serve porque você se perde. Se perde. Branco. Se perde no branco. No branco, no branco. Se perde no branco porque é o branco que põe tudo a perder. O branco. Não! Você não quer. Você luta. Você tenta lutar. Mas você é fraco. O branco. O branco, o branco. O branco tão branco e assustador. Você não quer! Não! Você não quer! Não quero! Mas é o branco que está aqui. O branco não ouve.
Antes de Encontrar o Colo
Há 8 meses
