Sol amarelo

[leia como quiser, entone como quiser]

Estou apaixonado,
apaixonado pela vida.
Gosto de viver, de 
viver gostando
de tudo e
de nada.
E de tudo,
porque tudo também é
nada.

Nada me entristece o
suficiente pra que eu
perca o gosto de viver.
Nada, nada.
Estou sempre alegre porque
a alegria é minha e eu
sou a alegria.

Sou amarelo como a palavra,
como o "sim", como o amarelo,
como o sol, como o "2" e
como a felicidade, que
também é amarela
como eu.

Viver é a melhor
graça que uma
graça é capaz de
ser.
Porque não tem nada
tão bom quanto
a graça que
isso é.

E é uma graça
divertida, uma
graça encantadora,
radiante
como o amarelo
que eu
também sol.

Suspiro, e meu
suspirar é leve.
Lembro agora da
minha tia que
já foi. Não
sei por que, mas
lembro agora.

E o agora é
também amarelo,
tão amarelo quanto
alegria.
Alegria que é um
nome todo prosa e
todo próprio.
Próprio de mim que
sol amarelo.

Já é mais de
duas. Olha aí ele,
o dois. Olha o dois
que é singelo, que
é segundo, minuto
é.

Minuto não, já
são duas horas,
duas e meia,
dia trinta e um.

São duas horas, e
eu aqui.
Olho pra mesa,
vej'uma flor.
Que flor é essa?
É amarela.
Como eu, como
alegria, como se
vive. Como
eu. Que
sou amarelo.

O fim de Abrantes

Abrantes, abra-te!
Abra-te antes
que eu te abra todas as portas.

E antes que eu veja
o que tem pra ver.
Ante o precipício,
antes o malefício.

Não andes em más companhias,
Abrantes.
Antes, veja.
Veja e olhe,
olhe o que tem pra ver.

Abraço-te, Abrantes.
Abraço-te.
Abraço com braço de ferro,
de ferro despedaçado.
De ferro derretido.
De ferro condoído.

E se não te abrires,
chorar que não vou. Em vão!
Ah, não entrarei
na contramão,
ante o mal.

Ante o nada,
Abrantes,

antes o nada.
Antes do nada.

Deliro, Abrantes.
Delírios da primavera.
Da primavera que veraneia,
que chora com cheiro de flor.

Um poeminha de nada


Passou outubro
e eu não escrevi nada,
passou um mês
e não veio nada.

Veio eu,
veio outro eu,
veio o seu,
mas não veio nada.

Não vi ninguém,
não fiz nada.
Sorri pra alguém,
mas não falei nada.

Desci do trem,
ouvi "meu bem",
pedi "Não vem",
e não veio nada.

Olá, Novembro,
não te peço nada.
Chegue ameno,
Oh, não pedirei mais nada.

Mas esteja atento,
venha como o vento,
não me traga tormento,
nem me esconda nada.


Ah, meu amigo lento,
não me diga nada.
Desrespeitei Novembro,
posso fazer nada.

Se passou Outubro
e não escrevi nada,
vou musicar um poema
e criar uma balada.

E agora terminando,
vou quebrar essa parada.
E vou quebrando,
quebrando,
quebrando,
e quebrando.
Coisa nenhuma.

Um rio de olhar profundo

E um rio profundo,
profundo,
fundo,
no fundo do rio.
E uma voz,
lá, lá,
lá,
lá no fundo,
no fundo,
fundo,
no fundo da voz.

E um olhar.

Algo que cabe numa aula de inglês

Eu passo muito tempo sem cronometrar nada,
e eu tô começando a ficar desesperado com isso.
Talvez seja por causa dessa aula, né.
O caso é que eu tô muito inquieto.
Eu tô com vontade de falar sozinho
e tô com raiva de ter que escrever.
A propósito, eu estou com raiva agora.


"Acho que é porque eu não consigo acompanhar
o seu cérebro" - Minha mão.
- MAS VOCÊ É MUITO LERDA, PORRA! - disse o cérebro.
- PARE. DE. GRITAR. CO. MI. GO!! - respondeu a mão direita.
    Enquanto isso, Mão Esquerda apoiava o queixo, que pinicava de leve.
    Mão e Cérebro continuavam brigando.
- Porra, vei, eu tô aqui em polvorosa, e você aí sendo limitada. - disse o cérebro.
- CULPE A FÍSICA, SEU INFELIZ! NÃO POSSO FAZER NADA! NÃO. TENHO. CUL. PA. DROGA!
- Eu acho melhor você falar baixo comigo. Posso demitir você quando quiser.
- Você não teria coragem - respondeu, triunfante, Mão Direita. - Além do mais, tenho boa parte das ações da Memória, então fique na sua. Mas nós trabalhamos por um Bem Maior, então cale essa boca.
    Cérebro ficou uns minutos em silêncio. Quer dizer, quase silêncio. Cérebro não cala a boca nunca; mesmo enquanto está falando com alguém, está dando ordens a, geralmente, centenas de outras pessoas, através de um sistema de comunicação extremamente eficiente.
    Na verdade, ele é um workaholic, insuportável, mimado, estressado, irritadiço e brilhante administrador. Cérebro também é rei, mas em outro mundo. Dos funcionários desse prédio, ele e os irmãos gêmeos siameses chefes de segurança Olho Esquerdo e Olho Direito, são os únicos que coexistem em mais de um mundo.
    A briga entre Cérebro e Mão Direita passou; Mão se acalmou, mas Cérebro não se acalma assim tão fácil. Agora, estava brigando com a Perna Direita. Talvez ele não goste muito desse pavilhão do prédio.
    A discussão agora era com o Pescoço e Costas. Essa dupla geralmente dá muito trabalho ao chefe. Muito, mesmo. Talvez seja melhor, a julgar pelo nível a que chegou a briga com a mão, não enveredar por essa relação.
    Enquanto isso, Mão Esquerda, quase sempre inútil, dava uns passeios pela cabeça, que agora estava apoiada nela.
    Pela primeira vez nos últimos quarenta e cinco minutos, Cérebro baixou um pouco a crista e se acalmou.

De quem não sei a história

No galho de uma árvore,
atrás de uma pedra,
dentro de uma caverna,
no fundo do mar,
na sombra da lua,
em cima da folha,
ao lado do vento,
queimando com o fogo.

Ali está ele,
e também pra lá,
e atrás de você,
e à sua frente.

Mas você não vê.
Seus olhos não sentem.
Mas você cheira.
Sua alma percebe.
E você chora, sem querer chorar,
seu corpo treme, bravo guerreiro.
Suas pernas enfraquecem,
sua força se vai,
e você não sabe o que fazer.

Se aproxima devagar,
rastejando como uma serpente,
esquivo, mesquinho,
cruel, terrível
como a serpente.

Se enrola em você,
e te pressiona,
te diminui,
te apavora,
te entristece.

Sua presença é assustadora,
e ele não precisa de corpo.
Mas pode ser alto como uma montanha,
ou diminuto como um anão.

Mas ele vem.
Ele vem sempre que pode,
porque é livre pra ir onde quiser,
para ser o que quiser.

É tudo isso.
Assustador e terrível,
apavorante e caçador.

Mas há um porém.

Se ele vem e vê,
vê com todo o corpo,
aquele do segundo cume,
aquele das copas vermelhas,
estremece, entorpece,
enfraquece, enlouquece.

Tem medo, mas enfrenta.
Então observe.
Observe a si mesmo.
Olhando para si
você vê,
vê com todo o corpo,
quando ele chegar.

Fé no café

.

Ca fé eu vou,
e café eu vou tomar.
E se não,
dou-te uma surra de cinto,
pois sabes bem que eu não minto.
Um dia ainda vou me esbaldar!

.

A narrativa de Vera Vieira

Vera Vieira 
era uma mulher sem eira nem beira
que um dia foi numa feira
 pra vida tentar melhorar.
Chegou lá e viu alguém 
que também não via um vintém
há mais de dez anos brotar;
então ele disse:
"sai daqui, ô doideira, 
pois aqui nessa feira 
pra ti que não há lugar!".

E então Vera Vieira 
era uma mulher sem eira nem beira
que um dia foi ao campo pra vida tentar melhorar.
Chegou lá e viu, num canto,
encolhido dentro de um manto,
sob a sombra de um 'por enquanto',
um rapaz desabando a chorar.
Aproximou-se, espiando,
recuou, no entanto,
pois foi que ele achou de gritar:
 "sai daqui, ô desgraça, 
que aqui minha vida é de graça, 
já sujei foi meu nome na praça, 
e a ti que não vou ajudar!".

E então Vera Vieira, 
uma mulher sem eira nem beira, 
cuidou de vagar pelo mundo, tentando uma vida arrumar.
Amarrou fita no braço, 
arrumou um rapaz do cangaço, 
pegou muito boi pelo laço,
e um concluir dominou seu pensar:

"Passei pela feira,
levei foi uma boa rasteira,
depois fui ao campo,
pra vida tentar melhorar.
Lá um rapaz, no entanto,
ao invés de secar o meu pranto,
tratou de negar-me um encanto,
e mandou, como uma vaca, ir pastar.
Passei fome,
passei frio,
passei dias e dias sob um sol cruel e ardil.
Mas uma vez ao relento,
com o céu de testemunho atento,
lamentei por ter tanto talento
pra minha vida poder arruinar.
Vou-me daqui, correndo,
pois é noite e ninguém tá vendo,
assim não posso atrapalhar."

Vera Vieira,
a mulher sem eira nem beira,
com uma lágrima de bebedeira,
morreu na última terça-feira,
sob a égide lunar.

Consequências da reflexão

.

Um dia vi flores no lixo
e fiquei sem entender
como tanta praga no mundo
vive dizendo sofrer.

.

O abismo

O pior ali era o branco. O branco, o branco. O branco tão branco e tão assustador. Aquele branco por todos os lados. Não me faça voltar pra lá! Mas é o branco que está aqui, e o branco não ouve. O branco não perdoa, não redime, não acolhe. Ah, angústia. Quero arranhar as paredes, preciso arranhar algo. Preciso cortar. Preciso cortar. Uma tesoura! É o branco que está aqui, e o branco não ouve. O branco é mau. O branco é pior que o preto. O preto te traz de volta pra si. Faz voltar, e voltar. E voltar. E no preto você se volta; você se olha. E tudo em você é preto, só preto, e é aí que você consegue. Mas o branco força a sua saída. Você não quer voltar, não quer. Mas você tem. Não! É o branco que está aqui, e o branco não ouve. O branco é branco, e não permite o preto. Mas você quer o preto. Você quer você. Você se quer, e você é o preto. E tudo em você é preto, só preto, e vai ficando preto. O branco tenta. Não! Você não é tão forte assim. Não! Você tenta. Tenta, tenta. Vá para o preto, vá até o preto. Entre, entre. Volte. Não! É o branco que está aqui. Volte! Preto. Preto e só preto, sem branco. Vê? Consegue? Tomou a consciência num susto, e viu-se em si. Viu-se voltado para si. Ali é tudo preto, tudo você. E o medo do branco? Nada. Ali é só você. Olhe para os lados e se veja. E se veja. E se volte. E se veja. E se viu. Estava diante de si. O que seria agora? Que seria? Que será? Será eu, será você. Você? Eu. Se olhe, me olhe. Algo errado? Olhe de novo. Onde está você? Você sou eu? Você sumiu. Estou aqui. Você se perdeu, você se perde. Você não é ninguém. Preto. Um outro preto, um preto estranho. Você não é ninguém. Preto! Preto! PRETO! Ah, angústia. Quero arranhar as paredes, quero cortar algo! Branco. Branco. Não, não. Preto. O outro preto, o primeiro preto. Não esse: o outro! Volte! Olhe para si! Olhe! Não quer, não é? Não quer! Se não quer, te mostro outra coisa. Vê ali naquele canto? Vê aquela felicidade, não vê? Vê! Sinta. Sinta. Você não pode sentir. Não pode sentir. Então foge. Foge e se deixa fugir. Deixa que o façam fugir. E foge. E foge dela, e ela foge de você. Foge de você assim como o amor, ali naquele outro canto. Vê? Vê! Ele foge de você. Foge porque sabe que tem que fugir. Foge porque você foge. Foge porque tem que fugir. Porque você não é nada. E se perde de novo. E se perde. E se perde aqui, e se perde lá fora. Lá fora onde tudo é perdido. Onde tudo está perdido. Você se perde com os outros. Você se perde mais que eles. Você não serve. Não serve pra eles. E nem pra si. Lá fora, você não serve nem pra si. Não serve, não serve. Não serve porque você se perde. Se perde. Branco. Se perde no branco. No branco, no branco. Se perde no branco porque é o branco que põe tudo a perder. O branco. Não! Você não quer. Você luta. Você tenta lutar. Mas você é fraco. O branco. O branco, o branco. O branco tão branco e assustador. Você não quer! Não! Você não quer! Não quero! Mas é o branco que está aqui. O branco não ouve.


Dez pras onze

Acho que a saudade que eu tenho do ano de dois mil e onze nunca vai ser superada. Nunca, mesmo. Dizer que foi mágico é muito pouco... Extremamente pouco. É uma saudade tão estranha... Tão grande, tão pontuda, tão amarelo-reluzente. Dois mil e onze reluz tanto na minha cabeça... Reluz em formato de túnel. É preto e tem um túnel de raios amarelos, de onde vêm todos os sentimentos possíveis. E é muito confuso. É muito confuso. Mas é bom. Gosto de sentir toda a mistura de lembranças. É excelente. Dá um calorzinho, um pensamento de "Ah, poxa vida", e eu me sinto frágil; tão frágil que me agarro às paredes do túnel, sempre. E essas lembranças vêm e voltam em um mesmo segundo. Não é algo que se estenda por um dia inteiro; não chega a completar dois minutos. Mas é tão forte que, sei lá. Sei lá. Foi um ano de experiências incríveis. Conheci e reconheci um bom número de pessoas impressionantes; impressionantes dos dois extremos. Viajei pra lugares fantásticos e experimentei algo tão novo que me surpreendi com a maneira com que lidei com a situação. Me roubaram um órgão e uns muitos sentimentos e, poxa vida, foi fantástico como não havia sido até então. Em dois mil e onze estão vários dos melhores minutos que eu já vivi. Fui tão feliz e triste, tão responsável e vagabundo. Experimentei o melhor e o pior de cada um com quem estive, e acho que esse seja o ponto principal da beleza que foi aquele ano. Senti tanto cada pessoa que esteve comigo, de uma forma tão natural e simples, que acaba fazendo falta, não sei exatamente o quê. Nunca tinha sido e estado tão vivo. E foi realmente o meu ano, como eu tinha dito no final de dois mil e dez. Dois mil e onze (2011) reorganizado, pode ser 21/01, uma das datas do meu aniversário. E foi... Dois mil e onze foi meu, e eu fui dele, de um jeito que, poxa vida, sei lá.


Ei, Barnabé!

No rodapé, Barnabé,
me joguei sem ter fé,
de que o meu quente café
alguém logo traria.


- E trouxeram?
Doido, eh, Barnabé?
Café não trazem.
Trazem água,
trazem leite,
trazem gozo,
mas o café,
o quente café,
o preto café,
o rico café,
não trazem.
Escondem, também.


- Amém?
Além!
Vintém
pra ninguém.


Barnabé:
café.
Ó: c a f é.
Ca fé.
Café é fé, Barnabé.
Café com fé.
Café.
Com fé.

O Pretérito-perfeito da Rua

Saiu pela rua,
bateu com a cabeça na lua,
rodopiou como uma perua
e caiu na navalha.


Faiscou numa ponta,
desconta! Desponta
da minha frente.
Interesso-me pelo céu,
e ao léu, de véu,
sem pé, não dou conta,
de que o mistério se encontra
pra lá,
além
de mim.

O vento e a sua cota

-
O fracasso me subiu à cabeça.
O fracasso me subiu à hic! 'beça...
O fracasso me subiu a beça.
O fracasso hic! subiu a beça...
Hic! fracasso hic! a beça.
Roarrrr...

Bocejo.
G o t e j o
e gracejo,
desejo e, no ensejo,
beijo.

O vento.
O vento de cores frias.
O vento tem cores frias, e sons distantes.
Um rosto tem dois lados;
de um deles o sol e seu calor,
               do outro, depravado,
             o furor,
       do amor desejado.


E frio.
O vento é frio.
A morte é fria.
A morte é fúria.
Mas acalma.
Acalma a alma,
Acalma.
Acalma como o vento.

Que 
caiu.
Feriu
e grunhiu,
m a s s e n t i u,
m a s p a r t i u,
m a s c a i u.
De novo.


E o motivo é sabido:
caminhar não vale a pena.
E não o sei.
Vem aqui que eu te amo;
saber, também não sei.
Falar, também não sei.
Pensar, soar, mostrar,
Dotar; só me vem um esgotar
que de falar já me desbota,
como o vento e a sua cota
de cores frias.
De cores frias,
De cores frias e furiosas,
de almas furiosas,
de almas frias,
de almas de vento frio,
do vento frio e de sons...
De sons...
Daqueles distantes; bem, bem
dis t a n tes.

A vez de Julia

     O telefone tocou ao longe. Julia abriu os olhos de repente, tonta e sonolenta, e desceu os pés da cama. Esperou o equilíbrio chegar e saiu andando do quarto; o sol passava pelos furinhos da cortina, pintando a sala de amarelo fraquinho das seis da manhã. Atravessou o cômodo e atendeu.
      - Julia?
      - Sim.
      - Você está sozinha?
      - Quem está falando?
      - Sou eu, Liane. Está sozinha?
      - Ah, Liane, olá. Estou sozinha, sim. O que houve?
      - A porta está trancada, não está?
      - Está. O que houve?
      - Ainda bem... Ainda bem. Julia, vejo você mais tarde.
      - Liane, o que está ac...?
     A ligação caiu. O estômago de Julia estava tenso de ansiedade. Foi até a porta certificar-se de que estava mesmo trancada, e constatou, com um lampejo terrível de medo, que não estava. Seu cérebro quase entrou em colapso quando forçou-se a entrar em ação, movimentando as engrenagens e reconstruindo os últimos momentos antes de dormir. Estava vendo um programa sem graça de sexta à noite na televisão, e acabou cochilando; acordou horas depois, já de madrugada, levantou do sofá, foi até a cozinha e depois voltou à sala, trancou a porta, apagou as luzes e foi deitar. Uma contração violenta em sua barriga sacudiu o corpo quando a preocupação veio: a madrugada. Passara horas dormindo no sofá, com a porta destrancada, completamente vulnerável. Burra! Mas a porta só abria por dentro. E se não a tivesse fechado direito? Antes de sentar no sofá para assistir o programa, atendera o entregador que viera trazer a pizza. Agora ela estava definitivamente com medo, e correu a virar de costas para a parede.
     Ali de onde estava, de olhos arregalados, Julia podia ver quase todo o apartamento. A sala não muito grande estava quase encoberta pela estante que fazia a divisão entre o pequeno hall de entrada e o restante da casa; podia ver a cozinha toda, graças à reforma que fizera no mês anterior, para ampliar a sala. Ofegando, Julia aproximou-se da banquinha e apanhou o abajur de flores como arma; rumou, pé ante pé, na direção da sala, cuidando para manter-se oculta da visão do quarto. Checou atrás do sofá e da estante, atrás do balcão da cozinha, atrás da mesa e no vão entre a geladeira e a parede. Não havia nada ali. Inclinou-se, e mantendo as costas contra a parede, sem girar o corpo, passou de leve a chave e trancou a porta do banheiro.
      Ainda tensa, começou a se arrastar de volta ao quarto, sem conseguir afastar os pensamentos terríveis de que pudesse ter passado todo esse tempo à mercê de algum bandido. Deslizou para dentro, agradecendo por ter o passo leve, e abaixou-se para olhar debaixo da cama. Um elefante saiu de cima dela ao ver o espaço vazio. Ergueu-se, um pouco mais tranquila, e foi checar o guarda-roupas. Porta a porta, ela deu de cara apenas com suas próprias coisas bem arrumadas e em seu lugar, como sempre havia deixado. Atrás da porta do quarto também não havia ninguém. O telefone tocou mais uma vez, sobressaltando-a. Pousou o abajur e correu a atender.
       - Liane? - disse.
       - Não, é Marco. Liane não está aí com você?
       - Não está, não. Ela me ligou agora há pouco. Marco, o que está havendo?
       - Como assim?
    - Liane me ligou preocupada, perguntando se eu estava sozinha e se a porta estava trancada.
       - Ah, merda...
       - Marco, por favor, me diga o que está acontecendo!
       - Não está acontecendo nada... Julia, vejo você mais tarde.
       Irritada e apreensiva, Julia bateu o telefone. Virou na direção da sala, indo à mesa procurar o celular na bolsa. Pegou o aparelho, e na busca pelo número de Liane, sentiu o corpo retorcer de dor quando algo irrompeu contra suas costas, queimando-a. Jogou-se para frente, fugindo do contato com o ferro em brasa, e virou-se para ver o que a tinha acertado. Com os olhos embaçados e cheios de lágrimas, a incredulidade sobressaiu muito à frente da dor da queimadura, quando viu quem estava ali, com um sorriso cruel e os olhos penetrantes de sempre.

Como (não) criar o seu bebê - O Discurso de Agradecimento

   Vocês criaram um monstro.
   Agradeço ao Sistema, à sociedade que engole, que atura e suporta. À televisão, à internet e ao Sistema, que indica, insinua e força. Agradeço à moral e às leis, que me obrigaram a conviver com a mediocridade em silêncio, todos os dias. Deixo também meus sinceros e entusiasmados agradecimentos ao governo, tão esperto e safo, que corrompeu a minha mecanização. Obrigado, convívio social, por criar a revolta, a insatisfação e o desprezo pela alienação; sem você, não teria visto e aprendido na prática os discursos alheios e os meus próprios, a respeito de todo esse entulho. Não poderia esquecer também da opressão e do poder fenomenal que a sociedade exerce sobre um indivíduo, como Durkheim ensinou: tenho fortes inclinações a concluir que esse foi o principal ingrediente da mistura terrível que resultou em mim.
   Devo, é claro, comentar com vocês que todos esses favores são vivos e acontecem a todo tempo. Não serei o Capitão Óbvio, todos sabem disso. Mas todas essas dádivas coercitivas é que me transformaram. Portanto, senhoras e senhores, talvez seja necessário repensar alguns pontos desta prática. Longe de mim querer dar palpite nessas tão bem desempenhadas práticas. Longe de mim. Mas não está funcionando. Que falha eu sou. Que falha eu e milhares de pessoas somos. Peço desculpas por não servir; talvez seja essa a explicação para a posição social em que me colocam sempre que abro a represa (que chamo de boca). Sou tão errado. Mais uma vez peço desculpas. Sou uma aberração, um bicho de sete cabeças, tão incoerente e deslocado que mereço a repulsa.
    No entanto, srªs. e srs., talvez seja necessário também que eu diga mais algumas coisas, alertá-los. Eu não sou o único. A não ser que tomem uma iniciativa mais intensa, alguma coisa vai acontecer. As outras aberrações que existem por aí (e por aqui) irão se levantar. Façamos alguma coisa. Esse marasmo arrebata a minha cabeça até as águas profundas do desespero (perdoem esse acesso de criatividade; é difícil controlar). Façamos alguma coisa. Quero me juntar a vocês, nessa tentativa de tapar os buracos que foram criados. Vamos, juntos, socar, entocar e esconder todos esses monstros que surgiram dessas falhas que não se sabe de onde vieram. Façamos alguma coisa. Precisamos fazer alguma coisa. Um monstro e uma aberração não são diferentes até que assumam suas próprias posições.

Sorriso cachaça

     Bem, estava bêbado e não podiam esperar muito dele. 
    Então saiu cambaleando pela rua apinhada de gente, entre os faróis ofuscantes dos carros e o barulho ensurdecedor daquela disputa surreal de sons. Cego, surdo e tonto, resolveu mergulhar de vez na doideira. Esbarrou em alguém que o empurrou com uma força assustadora - de grandes braços e feias palavras - e saiu girando e girando, sem conseguir ficar um instante sem esbarrar em algo e ser repudiado. Foi convivendo com as agressões pela avenida que parecia não ter fim, até dar de cara com o escuro e com o silêncio. Ora, estava de olhos fechados todo esse tempo! Desatou a rir, e riu por muito. E esqueceu de abrir os olhos. Caiu na gargalhada de novo, dessa vez por mais tempo. Abriu-os por fim e de fato deparou-se com o breu à frente. Demorou para focalizar uma luz distante, no fim do túnel. Ora, que túnel? Riu mais uma vez. Como estava engraçado hoje! É a cachaça. Naturalmente ele não é nada engraçado. Alguma coisa passou o rodo nessa brecha de realidade, e ele voltou a ser o bêbado divertido que sempre deveria ter sido. Seus olhos agora viam a luz com uma clareza meio duvidosa.
    Ensaiou levar um pé à frente do outro, mas a rua caiu pra esquerda e ele não pôde recusar companhia. Desaprendera a andar nesses últimos segundos? Esperou a rua descer da gangorra e pouco a pouco foi levantando. Voltou a encarar a luz, que agora parecia mais forte. Ou será que na queda fora projetado para frente sem sentir? Não saberia dizer. Resistindo a um forte e irracional impulso de cair na gargalhada, recomeçou a andar, dessa vez com um sucesso surpreendente. Não... Conclusões precipitadas; saiu andando em vários ângulos alternados, e a rua novamente o chamou para o chão. Estava começando a se irritar. Xingando alto de mais (ora, não havia ninguém ali, havia?), resolveu ir se arrastando. A luz começou a bruxulear, ou era a cachaça querendo se aparecer de novo.
      Estava chegando perto quando começou a chover. Não era possível que ele não fosse chegar à luz. Ora, é claro que chegaria. Resolveu encarar a embriaguez de frente. Parou e sentou, sem tirar os olhos da luz, e começou novamente a levantar. Aquela vontade imbecil de rir não ia embora nunca. A chuva pareceu lavar um pouco da cachaça em sua cabeça; alguma coisa dentro dele sobressaltou-se com essa percepção. Agora já podia andar de novo sem tantos estragos. E ele foi andando, de olho na luz, por um tempo que lhe pareceu longo de mais. A chuva caía cada vez mais forte, e seus passos se acertavam mais e mais à medida que aquelas gotas enormes acertavam sua cabeça. Foi como se um pára-brisas limpasse sua visão. Mais uma vez algo dentro dele reboou um lamento distante.
      A chuva caía tão forte que era difícil enxergar muito à frente. A luz começou a sumir entre as gotas, e ele começou a correr em direção a ela. Correu, correu e correu. E esqueceu. Que diabos estava fazendo? Virou-se e viu uma luz. Na verdade, duas. Fortes, ofuscantes, impiedosas e iminentes. O rapaz sóbrio foi arremessado para longe com uma força rigorosa.


No chão da rua

    Ali à beira da rua, o mundo girava. Levantou os olhos e ficou assim por um longo tempo. Carros e pessoas a ignoravam, como sempre o faziam. Arriscou e, sem mexer o resto do corpo, inclinou  a cabeça para o lado. Seus olhos fisgaram um chão distante, sujo e frio. Estava parada na borda do paralelepípedo quebrado, com os pés descalços na terra. Gorda como era e tonta como estava, certamente não conseguiria permanecer por muito naquela pose ridícula. E tudo a ignorava. Até o Sol, que aquecia o outro lado da rua - onde não havia ninguém - e não o lado em que ela estava. Algumas conclusões incomodavam mesmo depois de tão batidas.
   Incapaz de se mover, e suficientemente insignificante para ser ajudada, resolveu que seria melhor voltar a encarar o céu. Foi quando percebeu, quase de imediato, que havia uma nuvem cobrindo o Sol. Aquilo pareceu desanuviar sua mente, por um segundo demasiadamente fugaz. O banho de água suja que o ônibus deu-na puxou a vista de volta à rua e desorientou ainda mais a coitada que, cambaleando e sufocando, foi caindo e caindo, mais rapidamente do que qualquer outra pessoa. O xingamento do motorista do carro atrás do ônibus alcançou seus ouvidos como um distante "Sai do meio da rua, maluca!", mas nem por isso mais brando.
     Os cotovelos queimando travaram batalha com o chão, tentando erguê-la dali. Quando expulsou a areia dos olhos, flagrou uma mulher repreendendo o filho por roubar uma espiadela curiosa daquela coisa ali no chão. Foi obrigada a voltar a prestar atenção à batalha quando os cotovelos sofreram a primeira baixa; o direito escorregou, rolou e sangrou ainda mais. Repetindo o xingamento do motorista, tentou erguer-se de novo. Nessa e em todas as vezes posteriores um, outro ou os dois cotovelos escorregaram, e agora estavam sangrando de verdade. Era gorda e estava cansada. Suada, cada vez mais poeira e terra grudavam nela; muito disso vinha dos carros e dos sapatos das pessoas. Ou do vento, que também não gostava dela.
    Inútil e sem forças, rendeu-se àquele chão cruel e castigador. Deu um muxoxo agressivo e aleatório, gritou alguma coisa e ficou ali esparramada, sem coragem de olhar o céu.



A foda da fada - e a filosofia

Oh, oh,
não pare...
Por favor, repita
Sente aqui, repita,
Não evita,
Oh, doce fada bonita.

Ao meu lado,
então,
de supetão,
vejo um porta sabão
e logo vou com a mão,
desfrutar da textura.

Luxúria;
vê que um pouco não arde,
só não faça um alarde:
A noite cai sobre a tarde!
e em breve eles chegam.

Não grite.
Ou então me irrite:
Vá em frente e agite,
devagar; me permite,
agora, o rumo
tomar?

Atrite.
Vá até a rotunda;
dou até a segunda,
se me der sua palavra.
Profunda;
movimentos assim,
sem limite, outrossim,
dou até no capim
uma boa aparada.

Poda!
Vi daqui uma roda,
uma prova, uma corda,
de que o homem cresceu.
E como!
Como folha e semente,
imagino o seu pente,
pr'estes cachos, domar!

E como.
Como vejo o desejo
deste ensejo.
Trovejo:
A hora está a chegar!

E num insulto,
escuto
um gemido no ar.
Embranqueço a alma,
sinto um espasmo, espanto
de que todo o encanto,
que detinha ao ditar,
esvaiu-se num jato,
de um inebriante fato:

Como discursa bem!

Rapazeando da andorinha


Pelos rumores de canto,
flanco o barranco;
descia ribanceiras,
subia cordilheiras
e o rapaz,
no entanto,
me quebrava os portantos,
enfrentava cantoneiras,
me trazia bananeiras,
e sem variar,
no que te trago do acolá,
balançava esse mulambo,
traduzindo o Seu Fernando,
no que, de rima feia:
"- Vais atrás de uma sereia!,
e a cobre pelo amor."

Minha triste entonação;
capataz sem coração,
me perdoa a tentação
que traz a rima com o ão
e me traz uma andorinha,
sem ter pena da vizinha,
que sem penas, tão sozinha,
ouviu pois a zoadinha,
da triste entonação,
do roubo da andorinha,
que não tinha, coitadinha,
mais palavras pra rimar.


Na esquina do céu

{Corre que
   é quase
       tudo}

Um turbilhão de coisas na esquina 
do céu.
Eu não sei,
você viu?
Sumiu.
Abriu a porta e saiu.
Fingiu ser o recado que veio.
E passou batido no caminho.
Mas é o tal e a coisa.
Vindos atrás de nada também.
E tudo aquilo que veio
sem um sentido da semana
pulou pra trás e saltou por cima
de um turbilhão de coisas
na esquina do céu.


Neo-sazon: Viaje Comigo.

-
O título:
Sazon - Sazonalidade -> Sazonalidade - Estações do ano -> Estações do ano - Meses.
Neo - Novo.


Literalmente, NOVOS MESES ou NOVAS "ESTAÇÕES DO ANO".


Ok, agora que expliquei o título,
vem o comentário.


[Na segunda vez que o dia 25/02/12 marcou 23:37]

Na segunda vez que um dia marca um mesmo horário... Vamos pensar.
Ora, tem algo errado com o horário oficial...   Vamos pensar.
Horário de Verão?
BINGO!
E em que ano estamos? 2012. O que vai rolar de "anormal" nesse ano, além do fim do mundo?
Eleições.
Guarde essa informação.


Ok. Próximo passo: primeira parte do diálogo:


- Olá, querida.
- Olá.
- Hm... O que faz?
- Como?
- O que faz aqui?
- Desculpe, mas conheço você?
- Verdade.
- Conheço?
- Não, não conhece. Se importa?
- De que?
- De responder a pergunta.

Pergunta: eles se conhecem?
Não. Não se conhecem.
Mas poxa, o diálogo é enorme, e é entre desconhecidos!
Tem algo ae, hein...  


Ok. Segundo passo: Restante do diálogo.


- Você esta esperando que a páscoa chegue?
- Mas nós ainda estamos no carnaval...
- Pelo visto você não tem checado o relógio.


PONTO. Temos duas informações aqui.
O início do diálogo se dá realmente aqui. É onde começa a crítica.


Observe como eles se referem ao carnaval e à páscoa. Engraçado, né? É.
E o relógio...
O que faz um relógio?
Marca o tempo. Quando você quer saber quando começa ou termina determinada coisa, consulta o relógio. É um "delimitador".


E então vem o que ele diz a seguir:


- Como não? Deixo-o ligado praticamente todo o dia. Não saio de casa sem antes consultar o relógio.

Um relógio ligado? Quem se dá o trabalho de desligar um simples relógio? Ninguém. Essa foi a forma que eu achei pra dar o toque de que OLHA TEM ALGO ERRADO HEIN.
E observe também como ela fala. É um absurdo quando ela cogita que ele não tem consultado o relógio.


E, por fim: o relógio é a televisão.


- Pois saiba que o meu despertador apitou que já entramos na páscoa.
- Cacule comigo, querida. Natal acabou há nove semanas. Como espera que estejamos na páscoa?

Eae vem o novo objeto. O despertador. Guarde mais essa informação.
E há também aqui o reforço do que eu disse acima. Sobre a relação entre os "feriados" e os "meses".


- Você está surdo? - irritou-se - De onde é o seu relógio?
- E isso realmente importa? Em qualquer lugar do mundo é carnaval. Não vê o que diz o próprio relógio?
- Pelo amor de Deus, homem! Não pense como um ateu!
- Verdade, desculpe.


Não pense como um ateu. 
Aqui eu peguei pesado, sim.
Eu quis dizer que ateus pensam. Pensam além dos outros.
Obviamente que eu generalizei, mas o texto é cheio de clichês, então coube.
E nessa sociedade "paralela", ateus são mais "pejorativados" do que são na que vivemos. Pensar, no texto, é absurdo e repulsivo.


- Tudo bem. Mas veja: seu décimo terceiro chegou antes ou depois da última semana de natal, o ano novo?
- Antes. Esqueceu que esse ano o calendário ficou maior?
- Hm... É mesmo! Será que vão apertar São João?
- Não podem fazer isso... Talvez encurtem algum final de semana. Quais são mesmo os que tem em São João?
- Não importa, não é? É pra isso que servem os relógios.
Riram-se.


Duas coisas.
No comentário antes de começar o texto eu faço a referência às eleições.
E aqui eu faço a referência direta a elas. Com outra crítica.
Como é ano de eleições, os políticos obviamente querem deixar a população satisfeita. O décimo terceiro do cara saiu antes do reveillon, pra ele começar o ano com o bolso cheio. Ponto pra politicagem.


A expressão "final de semana" eu usei pra tornar ainda mais banal a crítica do texto, na interpretação dos personagens. "Interpretação", ne.
Final de semana, no texto, é o mesmo que ~feriados~. Uma folga curta, mas é uma folga.
E a última fala desse trecho:
É como se eles se achassem os fodões, entende? "Ah, foda-se. Nós temos o relógio para nos servir. Não precisamos nos preocupar."


- Aiai, querida.
- Que?
- Já parou pra pensar... Para pensar sobre como o ano é curto?
- Deus... Você fala como um ateu!


Ateu, de novo. Ele "parou pra pensar" e foi repudiado.


Riu, sem jeito.
- É que só há, no geral, seis épocas no ano... Nunca pensou sobre isso?

E aqui é onde eu reforço o título. Atesto o que estou querendo dizer. "Caramba, o ano é tão curto... Porque vivemos em função dos feriados."
Eu enumerei os mais importantes...
Carnaval, Páscoa, Dia das Mães, São João, Natal e Ano Novo.
Para o comércio.


- Vim chamar um técnico. Meu despertador está com problemas.
- Que problemas?
- Ora, que tipo de problemas pode ter um despertador? Não está mais despertando, né?


Aqui tem agumas coisas...
O despertador é a internet. Quando ele pergunta "que tipo de problema" e ela diz "MAS SEU LERDO, QUAL OUTRO TIPO DE PROBLEMA PODE TER UM DESPERTADOR?", é como se estivesse dizendo "Observe: já que só tem uma função, QUAL OUTRO TIPO DE PROBLEMA pode ter, se não há funções além dessa?". A função é servir de apoio ao relógio.


- Nossa! Como isso aconteceu?
- Meu filho estava mexendo nele um dia. Depois disso, ele veio me fazendo umas perguntas. Também, né: perguntas... Então meu despertador começou a trabalhar ao contrário.
- Mas...
- Que?


Ok. Ela diz que o filho estava mexendo no despertador. Assim como no relógio, que o cara deixa ligado, tem algo errado ai. É só pra dizer que não é despertador no sentido denotativo da palavra.
Eae ela diz novamente o significado que pensar, perguntar, questionar e derivados, têm para a sociedade do texto.
E ae também tem que "Olha, há esperança". Dá pra ver que o cara o tempo todo dá sinais de que tem alguma coisa ali errada, mas que ele é obrigado a não ver o que é, porque a correnteza é mais forte.


(E um detalhe. A única coisa não proposital nesse texto foi a escolha dos sexos. Eu só determinei homem e mulher pra equilibrar e não ficar o peso todo só para homens ou só para mulheres. E o cara ter sido o "que pensa" também não foi intencional. As ordens surgiram com a linearidade do diálogo.)


- Esquece. E então achou o técnico?
- Ah, claro que sim! Esta central que regula relógios e despertadores é excelente!
- Não...
- Não o que? - exasperou-se.
- Não vejo problemas com ela. E é realmente muito boa.


Essa é a minha parte preferida, e a que eu considero igualmente a mais fácil e a mais difícil de interpretar.


Se ligue.
"Esta central que regula relógios e despertadores".
Relógios e despertadores = televisão e internet. Mídias sociais.
É dito, debatido e escutado que elas são controladas por uma minoria, certo? A prestatividade que o técnico mostra em consertar o despertador dela é como se fosse uma prevenção contra possibilidade de ela deixar de ser controlada. 
E em seguida:
"É realmente muito boa."
- Não...
- Não o que? - exasperou-se.
- Não vejo problemas com ela. E é realmente muito boa.

Agora a gente para.   
Viaje comigo.
Eu cito o 'controle de mentes' que há através de uma minoria. Ponto.
Quando eu digo que "é realmente muito boa.", eu estou dando os dois sentidos a essa afirmação.


O primeiro, é, de acordo com a sequência do diálogo, que o método de controle é eficaz, o que é observável.


E o segundo sentido é o contraponto dessa ideia, em relação às três linhas seguintes. Eu afirmo que isso é eficaz, mas em seguida eu NEGO que seja BOA (no sentido de bem/mal).
O cara poderia ter dito logo que não vê problemas com ela. Mas observe:
- Não.
- Não.
- Não.
As três linhas seguintes começam com uma negação, como se estivessem negando o que eu disse.


E no meio disso ainda tem o reforço. A mulher fica doida quando ACHA que o cara vai falar mal da central. Ela tá alienadíssima.


Então o sentido do texto volta ao original. O cara diz que a central é realmente boa (eficaz).
Isso remete também ao lado "ateu" do cara, no sentido da palavra no texto. Ele pensa em ir, mas é obrigado a voltar o tempo todo.


- Sem dúvida. Agora se não se importa, tenho que ir.
- Oh! Tudo bem.
- Preciso fazer as compras do mês. Agora que passou o carnaval e meu guarda roupas já está com as camisas usadas, chegou a hora dos chocolates. - sorriu.


"Preciso fazer as compras do mês." Reforço do título. E ela se refere, novamente, aos feriados como se fossem épocas "oficiais" do ano. 
Camisas usadas = abadás.
Agora que ela já comprou os abadás, chegou a hora de gastar dinheiro com os chocolates.
Comércio, comércio, comércio, comércio.
O tempo todo no texto.
"Sorriu." Ela não se importa com isso.


- Uhum! Farei o mesmo, em breve. Boa sorte com o despertador.
- Obrigada. Até mais.
- Até.


Ele diz que vai fazer o mesmo ~em breve~ porque, você lembra, no início do texto eles discutem sobre estar ou não no carnaval.
Ele não deu o braço a torcer. Ainda acha que estão no carnaval, por isso não a acompanha para as compras do chocolate. Pra ele, ainda não chegou o tempo.
E o final do texto é só um reflexo do vazio que há na cabeça deles. Os dois são absurdamente superficiais.


FIM 
- - -


Sim, eu viajo desse jeito. Estranho, né?