Ali à beira da rua, o mundo girava. Levantou os olhos e ficou assim por um longo tempo. Carros e pessoas a ignoravam, como sempre o faziam. Arriscou e, sem mexer o resto do corpo, inclinou a cabeça para o lado. Seus olhos fisgaram um chão distante, sujo e frio. Estava parada na borda do paralelepípedo quebrado, com os pés descalços na terra. Gorda como era e tonta como estava, certamente não conseguiria permanecer por muito naquela pose ridícula. E tudo a ignorava. Até o Sol, que aquecia o outro lado da rua - onde não havia ninguém - e não o lado em que ela estava. Algumas conclusões incomodavam mesmo depois de tão batidas.
Incapaz de se mover, e suficientemente insignificante para ser ajudada, resolveu que seria melhor voltar a encarar o céu. Foi quando percebeu, quase de imediato, que havia uma nuvem cobrindo o Sol. Aquilo pareceu desanuviar sua mente, por um segundo demasiadamente fugaz. O banho de água suja que o ônibus deu-na puxou a vista de volta à rua e desorientou ainda mais a coitada que, cambaleando e sufocando, foi caindo e caindo, mais rapidamente do que qualquer outra pessoa. O xingamento do motorista do carro atrás do ônibus alcançou seus ouvidos como um distante "Sai do meio da rua, maluca!", mas nem por isso mais brando.
Os cotovelos queimando travaram batalha com o chão, tentando erguê-la dali. Quando expulsou a areia dos olhos, flagrou uma mulher repreendendo o filho por roubar uma espiadela curiosa daquela coisa ali no chão. Foi obrigada a voltar a prestar atenção à batalha quando os cotovelos sofreram a primeira baixa; o direito escorregou, rolou e sangrou ainda mais. Repetindo o xingamento do motorista, tentou erguer-se de novo. Nessa e em todas as vezes posteriores um, outro ou os dois cotovelos escorregaram, e agora estavam sangrando de verdade. Era gorda e estava cansada. Suada, cada vez mais poeira e terra grudavam nela; muito disso vinha dos carros e dos sapatos das pessoas. Ou do vento, que também não gostava dela.
Inútil e sem forças, rendeu-se àquele chão cruel e castigador. Deu um muxoxo agressivo e aleatório, gritou alguma coisa e ficou ali esparramada, sem coragem de olhar o céu.
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