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Azinho

Eu sinto uma tristeza.
Dessas que são devagarinho,
dessas que te adoecem um pouquinho.
Que te adoecem e que te deixam sem saber como viver.

É a tristeza azul-clarinho,
que me tocou aqui no ninho,
que me levou pelo cantinho,
que me fez lembrar você.

Mas a tristeza já tem nome,
e ele é pequenininho,
ele é todo arrumadinho,
é nome que já vou dizer.

O nome fica bem juntinho,
o nome veio de mansinho,
o nome dela é da sua cor,
o nome dela é azinho.


Catarina prefere o mundo


Na busca por concentração, Catarina abriu a bolsa a procura de um remédio que pudesse lhe acalmar. Tateou às cegas, mas não encontrou nada se não o mundo de tralhas que carregava por todos os lados, há um bom tempo. Olhou para cima, em busca de alguma solução. Pois foi que achou um martelo, e com ele quis se resolver. Olha, resolução, olha, resolução. Catarina ajoelhou-se por um tempo, sorriu amarelamente e se pôs a gritar. Jogou pra fora toda aquela cor que lhe estava presa à garganta, agarrada à sua pele, arranhando-lhe tudo por dentro. A cor saiu rasgando tudo, rasgou o céu que achou pela frente, rasgou o véu que cobria as coisas. Catarina olhou para um instante, e Catarina descobriu o quanto era cega. Uma gargalhada escapou de dentro dela, de um dentro tão profundo que Catarina nunca havia tomado consciência. O fundo tornou-se inda mais fundo, mas evoluiu ao raso. E Catarina gritou novamente, sem querer gritar. Seu querer submeteu-se à desordem e ao não comando, e Catarina dessa vez sorriu. Tomou um susto quando o céu caiu sobre ela, e a chuva ameaçou derreter-lhe toda. Tremendo, Catarina levantou-se sobre as pernas, mas elas fraquejaram e se puseram a cair. Antes que caisse, no entanto, com um supetão sem precedentes, o céu puxou-lhe de volta, e Catarina foi erguida às nuvens, alheia a qualquer realidade. Mas o céu não quis carregar com ele tal responsabilidade, e Catarina foi arremessada de volta ao chão, onde bateu com força no nada; e o nada se dissolveu, e foi aí que Catarina veio ao chão. Não contente, Catarina ergueu os olhos para os lados e viu alguma coisa. Não uma só: duas coisas, lado a lado, de mãos dadas ali em frente. O mundo fez silêncio, mas o silêncio fez um pequeno esforço e conseguiu gritar. Catarina ouviu o grito, e essa distração bastou para que as duas coisas sumissem. O sumiço fez-se sorriso, e esse sorriso grudou-se ao rosto de Catarina. O mundo girou, e Catarina recebeu o impacto daquilo com maus grados, preferindo ficar alheia ao movimento. Aquela percepção acalentou o mundo de Catarina, e ela percebeu que possuia um mundo. E Catarina percebeu que poderia preferir. E preferindo, agora, Catarina retornou. Agora estava apta a ficar alheia ao mundo. Poderia preferir ficar alheia às realidades. Catarina desgrudou o sorriso, assumiu qualquer postura e recitou aos ventos:

Me deixo estar,
me deixo estar estando,
estando livre para preferir,
e preferir, vou preferindo,
sem chegar e sem sair.

Se eu não saio, não chego;
chegar eu não preciso.
Mas se quiser ficar aqui,
andando, sempre irei saber.

Se o mundo vem até mim,
é porque ele precisa.
Se não precisa,
a mim ele não vem.

Vou-me quando quero,
e quero quando vou-me.
Seu real é a loucura do meu mundo.
Não tenho os pés virados para trás,
mas ando confundindo.
Meu real é a loucura do seu mundo,
que se perde ao sorrir do sol
no mundo meu.

Sol amarelo

[leia como quiser, entone como quiser]

Estou apaixonado,
apaixonado pela vida.
Gosto de viver, de 
viver gostando
de tudo e
de nada.
E de tudo,
porque tudo também é
nada.

Nada me entristece o
suficiente pra que eu
perca o gosto de viver.
Nada, nada.
Estou sempre alegre porque
a alegria é minha e eu
sou a alegria.

Sou amarelo como a palavra,
como o "sim", como o amarelo,
como o sol, como o "2" e
como a felicidade, que
também é amarela
como eu.

Viver é a melhor
graça que uma
graça é capaz de
ser.
Porque não tem nada
tão bom quanto
a graça que
isso é.

E é uma graça
divertida, uma
graça encantadora,
radiante
como o amarelo
que eu
também sol.

Suspiro, e meu
suspirar é leve.
Lembro agora da
minha tia que
já foi. Não
sei por que, mas
lembro agora.

E o agora é
também amarelo,
tão amarelo quanto
alegria.
Alegria que é um
nome todo prosa e
todo próprio.
Próprio de mim que
sol amarelo.

Já é mais de
duas. Olha aí ele,
o dois. Olha o dois
que é singelo, que
é segundo, minuto
é.

Minuto não, já
são duas horas,
duas e meia,
dia trinta e um.

São duas horas, e
eu aqui.
Olho pra mesa,
vej'uma flor.
Que flor é essa?
É amarela.
Como eu, como
alegria, como se
vive. Como
eu. Que
sou amarelo.

A narrativa de Vera Vieira

Vera Vieira 
era uma mulher sem eira nem beira
que um dia foi numa feira
 pra vida tentar melhorar.
Chegou lá e viu alguém 
que também não via um vintém
há mais de dez anos brotar;
então ele disse:
"sai daqui, ô doideira, 
pois aqui nessa feira 
pra ti que não há lugar!".

E então Vera Vieira 
era uma mulher sem eira nem beira
que um dia foi ao campo pra vida tentar melhorar.
Chegou lá e viu, num canto,
encolhido dentro de um manto,
sob a sombra de um 'por enquanto',
um rapaz desabando a chorar.
Aproximou-se, espiando,
recuou, no entanto,
pois foi que ele achou de gritar:
 "sai daqui, ô desgraça, 
que aqui minha vida é de graça, 
já sujei foi meu nome na praça, 
e a ti que não vou ajudar!".

E então Vera Vieira, 
uma mulher sem eira nem beira, 
cuidou de vagar pelo mundo, tentando uma vida arrumar.
Amarrou fita no braço, 
arrumou um rapaz do cangaço, 
pegou muito boi pelo laço,
e um concluir dominou seu pensar:

"Passei pela feira,
levei foi uma boa rasteira,
depois fui ao campo,
pra vida tentar melhorar.
Lá um rapaz, no entanto,
ao invés de secar o meu pranto,
tratou de negar-me um encanto,
e mandou, como uma vaca, ir pastar.
Passei fome,
passei frio,
passei dias e dias sob um sol cruel e ardil.
Mas uma vez ao relento,
com o céu de testemunho atento,
lamentei por ter tanto talento
pra minha vida poder arruinar.
Vou-me daqui, correndo,
pois é noite e ninguém tá vendo,
assim não posso atrapalhar."

Vera Vieira,
a mulher sem eira nem beira,
com uma lágrima de bebedeira,
morreu na última terça-feira,
sob a égide lunar.

Dez pras onze

Acho que a saudade que eu tenho do ano de dois mil e onze nunca vai ser superada. Nunca, mesmo. Dizer que foi mágico é muito pouco... Extremamente pouco. É uma saudade tão estranha... Tão grande, tão pontuda, tão amarelo-reluzente. Dois mil e onze reluz tanto na minha cabeça... Reluz em formato de túnel. É preto e tem um túnel de raios amarelos, de onde vêm todos os sentimentos possíveis. E é muito confuso. É muito confuso. Mas é bom. Gosto de sentir toda a mistura de lembranças. É excelente. Dá um calorzinho, um pensamento de "Ah, poxa vida", e eu me sinto frágil; tão frágil que me agarro às paredes do túnel, sempre. E essas lembranças vêm e voltam em um mesmo segundo. Não é algo que se estenda por um dia inteiro; não chega a completar dois minutos. Mas é tão forte que, sei lá. Sei lá. Foi um ano de experiências incríveis. Conheci e reconheci um bom número de pessoas impressionantes; impressionantes dos dois extremos. Viajei pra lugares fantásticos e experimentei algo tão novo que me surpreendi com a maneira com que lidei com a situação. Me roubaram um órgão e uns muitos sentimentos e, poxa vida, foi fantástico como não havia sido até então. Em dois mil e onze estão vários dos melhores minutos que eu já vivi. Fui tão feliz e triste, tão responsável e vagabundo. Experimentei o melhor e o pior de cada um com quem estive, e acho que esse seja o ponto principal da beleza que foi aquele ano. Senti tanto cada pessoa que esteve comigo, de uma forma tão natural e simples, que acaba fazendo falta, não sei exatamente o quê. Nunca tinha sido e estado tão vivo. E foi realmente o meu ano, como eu tinha dito no final de dois mil e dez. Dois mil e onze (2011) reorganizado, pode ser 21/01, uma das datas do meu aniversário. E foi... Dois mil e onze foi meu, e eu fui dele, de um jeito que, poxa vida, sei lá.


A Praia


A praia das nuvens estava iluminada. Havia uma grande expectativa no céu. As estrelas usavam seus melhores vestidos, e o restante dos astros aproximava-se vagarosamente. Um vagalume piscou três vezes enquanto a cigarra cantou seu mais belo hino de boas vindas. A tempestade da noite passada havia presenteado as formigas com asas, dando-lhes a oportunidade de assistir a tudo bem de perto. O vento assumiu sua forma gélida, indo e vindo devagar, deslizando sua brisa para todos os lados, acalmando e aclamando serenamente toda aquela situação. O sol pedira o espelho do lago emprestado, e posicionando-se contra ele, irradiou todo seu brilho naquela direção. Usava agora sobre a cabeça uma coroa linda e brilhosa, num gesto de reverência. As flores lutavam para permanecer abertas, incapazes de se perdoar caso perdessem alguma coisa. Morcegos e pássaros voavam lado a lado, piando e emitindo sonares ao mesmo tempo, sem se importar com nada. As mariposas e as borboletas também estavam unidas, indiferentes às condições. Os peixes lá de baixo subiram à superfície e permaneceram ali na expectativa. Um sentimento de profunda magia enchia o coração de cada um daquelas criaturas expectadoras. Um brilho pingou pelo céu escuro. Uma lágrima anunciadora caiu dali, logo se transformando numa avassaladora onde de esperança e felicidade. O brilho foi aumentando, a expectativa acompanhando seu ritmo. O esplendor encheu os pulmões de tudo. As nuvens se ajustaram e criaram um caminho belíssimo que uniu o céu e a terra. A rainha despontou na esquina mais próxima. Os olhos dos que assistiam encheram-se de lágrima. Ela estava chegando, estava chegando. Uma voz doce e suave acariciou os tímpanos. Todos se dobraram numa profunda reverência. A Rainha Lua sorria, acolhendo o mundo com sua beleza. Os habitantes da Terra pararam o que estavam fazendo. Não havia mais uma centelha de guerra, nem nenhuma outra coisa ruim. Todos pararam e a olharam. E choraram. A Lua desceu os degraus de nuvem e quando seu pé tocou o chão, tudo foi só felicidade. Todos souberam, sentiram. Ela chegara.


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Para ler assim. 
De vez. 
Bem, me faz  sentir vontade de chorar.

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Um guarda-chuva para Liane em sua primeira parte


Eu tinha um guarda-chuva, naquela época. Bem, eu mesmo o fiz, sabe? Não lembro direito como, mas estou certo de que levei bem umas cinco semanas para deixá-lo pronto. Foi uma verdadeira festa quando terminei. Liane ficou extremamente radiante e deu aquelas cinco piscadas que eu adoro desde sempre. Está vendo aquela foto ali? Ao lado das xícaras na prateleira. Não, esta foi em Mississipi, ano passado. Estou falando daquela, ao lado da que você apontou, com a moldura quadriculada. Isso. Sim, eu e Liane tiramos essa foto há dois anos, se não me engano, no dia que ela soube que estava grávida. Você não faz ideia de como eu fiquei, quando ela me deu a notícia. Desculpe não contar a maneira que ela usou para dizer, mas há alguns anos fizemos uma lista de informações que jamais compartilharíamos com outras pessoas, sabe? E isso está entre os primeiros itens. Enfim, deixe-me dizer sobre esta foto. Você pode ver que ela está com o cabelo preso de um jeito engraçado, não é? Ah, sim, fui eu quem fiz esse penteado nela. Tenho a consciência de que não ficou lá uma beleza, mas, perdoe-me a franqueza, tudo fica bem em Liane. Pode rir da minha cara; um dia você vai saber exatamente o que estou falando, se tiver a mesma sorte que eu. Pois bem, vamos continuar na foto. Dá pra ver também que eu a estou segurando pelo ombro, não dá? Foi ela quem montou as posições. Liane costumava ser bastante criativa com fotografias, mas essa, tenho que admitir, não foi muito bem... Não interessa, ficou boa. O que você disse? Ah... Bem, eu... Desculpe. Perdão, preciso ir agora.