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Azinho

Eu sinto uma tristeza.
Dessas que são devagarinho,
dessas que te adoecem um pouquinho.
Que te adoecem e que te deixam sem saber como viver.

É a tristeza azul-clarinho,
que me tocou aqui no ninho,
que me levou pelo cantinho,
que me fez lembrar você.

Mas a tristeza já tem nome,
e ele é pequenininho,
ele é todo arrumadinho,
é nome que já vou dizer.

O nome fica bem juntinho,
o nome veio de mansinho,
o nome dela é da sua cor,
o nome dela é azinho.


Havia um Vitorino


Uma história de Vitorino, redigida por Leonardo de Andrade, pelo Tempo e pelo próprio.
Com uns e outros auxílios.
E atrapalhos também.


- - - - -

Um ambiente e uma metáfora às vezes podem ser a mesma coisa.

     Lá se vai o meu ônibus.
    São... Uma e quatorze da manhã. É sábado. Hoje deve ser algum dia entre quatorze e dezesseis. Eu não tenho certeza. Eu não tenho certeza de muitas coisas, a propósito.
   Mas de uma, eu tenho. E essa é absoluta. Eu tentei avisar a ele. Desfilei uma coleção completa de argumentos sobre o quão é aparentemente inapropriado dar de presente uma história dessa. Oras. Juro que tentei. Mas desculpe, Thiago (ouvi ser esse o seu nome), mas não consegui ser suficientemente convincente. Para me desculpar formalmente, escrevi algumas linhas de dedicatória, pra enfiar entre as páginas quando ele não estivesse olhando. O papel deve esta aqui em algum lugar...
  Há uma hora atrás, Vitorino morreu. Não se sabe a causa, não se sabe ao certo o lugar. Não interessa, no fim das contas. Nada disso importa. O fato é que ele perdeu o ônibus. Não poderia ser diferente, naturalmente. Aqui, voa quem pode. Lá também. Mas é um ônibus bom, até. Sabe, desses com ar-condicionado e bancos estofados. Ainda custa dois e oitenta.
    O tempo até que está bom, hoje. Eu acho, particularmente. Do lado de lá, parece que vai chover, mas pra cá, o céu está limpo. Espero que o próximo não demore. Estou começando a ficar com fome...
   Se você pechinchar, até paga mais barato. Mas observe o banco. Aquele ali, pintado de amarelo. Vitorino sentou ali assim que percebeu que morreu. Francamente. Olha esse tipinho. Debochar da morte é heresia. Quer dizer... Vitorino morreu ontem, mas não se lembra de quê. Isso você já sabe. Eu estou tomando seu tempo, porque quando Vitorino começar...
   Ah! Está ouvindo? Aquele rapaz no carrinho passou tocando Roberto Carlos. Opa. Roberto Carlos. Quantos anos eu tenho? Digo: eu tive? Ai... Eu tive uma namorada, sabe. OLHA! HAHAHA! Eu tive uma namorada. Bicho... Há mulheres que se enroscam...
     Nós nos conhecemos num trem. Ai, ai... Opa. Está vendo aquilo ali? Então quer dizer que essas telas existem mesmo. A gente realmente pode repassar a vida toda. Talvez eu possa saber de que morri...
   Vitorino conheceu Silvana em um baile. Desses que as pessoas realmente dançam. Ele olhou para ela; ela olhou de volta. Um chegou perto do outro, as mãos se triscaram e se afastaram rapidamente. Envergonhados, foram chegando mais perto. O primeiro beijo só aconteceu nove meses depois.
    OPA! Duvido que isso seja verdade. Pois saiba que eu nem estava falando da Silvana, para o seu governo. Nem sei quem é essa daí... Eu me recordei foi de Edileuza. Ai... Olha, está começando a aparecer ali na tela. Preste atenção! HAHAHA! É engraçado como nos conhecemos.

   Era um trem, lotado, socado de gente. Balançava, balançava, e todos se empurravam. Sem querer (querendo). Havia um Vitorino Malvino da Luz Amaral de pé, todo engomado, cabelo partido de lado, a mala pendendo ao chão. Havia uma mulher morena, pele reluzente, magra no espelho, desmagra na real. De cara fechada, a mulher via o mundo correr pra trás, enquanto estava ali parada no trem. Olhou a mala ao seu lado, e depois o pé do rapaz Vitorino, que estava encostando no seu. Isso foi por cinco vezes. Na quinta, Vitorino indagou:
– A senhora acha seu pé bonito?
– Não. – rebateu Edileuza, só com o rosto, sem dizer palavra.
– E eu concordo. Então não deve ser por admiração que eu estou olhando para ele.
Pausa.
– Já lhe ocorreu que eu possa estar cuidando para não pisar no seu pé e causar, com isso, um inferno dentro desse trem?
“Dadas as palavras acima, redija um romance”, fez o Tempo, e Vitorino e Edileuza, obedientes da vida, redigiram. Com um desempenho invejável, diga-se. A virilidade de Vitorino permitiu-lhes quatorze filhos.

    Caramba, é verdade! Eu tive filhos com Edileuza! Sabe como é, né... Eu cheguei nela, falei, aí pá, plis, caixinha de fósforo... Espera. Quantos anos eu tenho? Quer dizer: eu tinha? Talvez essa televisão me ajude...
    Vitorino conheceu outras mulheres, além dessas duas. Sabe, ele já teve uma boa aparência. Agora tem essas coisas espalhadas pela cara...
       OPA! Que coisas?
     Nada, Vitorino. Sabe de quem acabei de lembrar? De Vanusa. Você lembra daqueles peitos, Vitorino? Vitorino, Vitorino. Se eu fosse você, estaria profundamente arrependido de ter morrido, e perdido aqueles peitos.
     Poxa, é verdade. Vanusa tinha os melhores peitos que uma pessoa é capaz de ter. Eles eram macios, e sedosos, e quentinhos, e... OLHA! Está aparecendo ali na tela! EPA, tira o olho, parceiro!

    Era um pátio externo. Vanusa, uma mulher que já foi musa, agora jazia no lixo. Catava papelão e precisava sobreviver. Comia numa feira que dava comida aos pobres na hora do almoço. Certa feita, havia um Vitorino Alvino da Muz Lamaral de pé, todo desengonçado na fila do almoço. Não era pobre. Não era rico. Bem, então por que não, né? Vanusa era uma dessas mulheres faca na bota. Não levava desaforo pra casa, nem para lugar nenhum. Quando os rapazes vieram roubar seu papelão, ela enfrentou cada um, mas era apenas uma, e ela caiu no chão. O rapaz Vitorino foi ajudá-la a se levantar. Disse-lhe que iriam juntos à delegacia, e completou:
– Suja como está, é provável que eles te prendam assim que puser os olhos no edifício. Seria considerado atentado ao pudor. Vá tomar um banho.

      E depois dessas palavras insanas, Vitorino conheceu os peitos de Vanusa, antes mesmo de irem à delegacia. Foi ele quem a ajudou no banho. Não é preciso dizer por quê eles eram quentinhos.
     Eu ficaria agradecido se não ultrapassasse o limite do meu respeito. Ainda mais agora que eu estou morto. Ainda mais agora? Será que eu era velho? Talvez eu possa ver na tela, assim que eu achar o controle...
      Não sei quem disse que morto merece respeito. Ok, desculpe, Vitorino. Vamos continuar. Você se lembra de quando participou de uma banda? Foi lá que conheceu Suzana, aquela dos joanetes. Que pés horrorosos.
     Vitorino não disse nada. Um arroubo de imagens e sons perpassaram por ele, e a alma ficou armada e apontada para a cara do sossego.

     Era uma garagem. Era um grupo de seis. O sétimo havia saído, porque sete é um número de azar. Ele nem quis, mas saiu assim mesmo. O último da lista era sempre o mais especial. Eram as regras da banda, eram os deveres do lar. Desculpe o Tempo, pois o Tempo está corrido. E corrido, ele corre sem sentido. Esse trecho de uma das músicas da banda não poderia ser mais apropriado. Foi Suzana quem escreveu. Suzana, a dos joanetes. Mas ela os cobria muito bem cobertos e era só sorrisos da barriga pra cima, pois era só isso que os fãs viam naquela noite de autógrafos. Havia um Vitorino Malvino la Muz Maral todo estiloso, camisa pra dentro, sem nada no bolso, mas cheio de amor pra dar. Ah, papai! Ele e Suzana haviam se conhecido na banda. Ele tocava... Bem. O horário não permite. Mas era um bom espectador. Suzana era guitarrista. E poetiza, e baterista, e às vezes arriscava a pianista. O rapaz Vitorino aproximou-se com seu livro. Ele não lia. Porque não gostava, porque não queria. Mas Suzana ele queria. Suzana ele queria. Suzana ele bem que queria. Na sua vez, ele chegou à mesa e depositou delicadamente o livro na bancada. Um aviso: Vitorino nunca foi bom de cantada:
– Você tem uma capacidade incrível de aturar gente chata vomitando no seu ouvido. É um verdadeiro dom, e é raríssimo.
– É... – ela deu um sorrisinho sem graça.
– Fique feliz, eu estou te elogiando.
Pausa.
– É sério! – ele continuou – Eu te invejo exclusivamente por isso.
Havia uma Suzana encantada com a cantada de Vitorino. E, acredite, os dois se casaram. Um ano e dois meses depois disso.

   Vitorino fez uma tatuagem. Suzana o acompanhou. Os dois marcaram-se na pele um do outro, para sempre, com “V-s2-S”. Eu sei, eu sei. Mas fazer o quê, né.
   Vitorino foi muito mais. A fita está começando a emperrar. O banco está começando a descascar, mas Vitorino foi muito mais. Trabalhou em um jornal sensacionalista. Depois foi promovido a âncora desse jornal. Foi demitido quatro semanas depois, ninguém soube por quê. Foi pugilista. Cem vezes campeão, em apenas dois anos. Foi mergulhador. Estava no bando de Lampião. Roubou um beijo de Maria Bonita na frente do cangaceiro, e este lhe deu um abraço em seguida. Esteve também ao lado da polícia que prendeu o bando. Lampião jamais lhe perdoou. Esteve em todos os aniversários de Jorge. Eram amados amigos de infância. Conheceu a rainha. Conheceu o papa. A este, estendeu uma cruz de ponta cabeça e recebeu de volta um beijo soprado no ar. Andou na corda bamba por cinco vezes, diariamente, entre dois penhascos nos Estados Unidos. Visitou um amigo das FARC. Visitou o Camboja. Conheceu um rapaz azteca. Casou-se três vezes com a mesma mulher, porque os dois se amavam de mais. Separou-se outras quatro, de outra mulher. Ela se chamava Simone, e tinha os maiores braços que você pode imaginar. Fez duzentas cirurgias, em todo o corpo. Em uma, ajudou o médico a guiar a câmera pelo estômago. Vitorino via tudo acontecer. Vitorino fazia tudo acontecer. Vitorino foi o que aconteceu.

    Mas o que foi lhe aconteceu? Mas o que foi que lhe aconteceu? Vitorino não sabe. Era um céu, era uma nuvem só. Um céu de uma nuvem só. A fita está emperrando, o banco está descascando, e o Tempo está passando. O Tempo já passou. O Tempo está passando.

   Havia um Vitorino uma vez. Havia um Vitorino duas vezes. Três, quatro, cem vezes. Cem vezes cem, de tantas vezes. E de tantas, Vitorino levou uma. Foi de uma só vez que aconteceu.
Havia um Vitorino, e então desapareceu. Havia um Vitorino. Agora, desavia um Vitorino.

  O ônibus chegou freando forte. O motorista corria, pois estava com pressa. O banco descascado, a fita emperrada, o tempo passado. Vitorino estava apagado. Armado e apontado para a cara do sossego. Os rapazes trouxeram a maca, puseram Vitorino deitado lá. Levaram Vitorino para dentro do ônibus. O vento passou e o vento levou do bolso de Vitorino um papel dobrado, muito bem educado.
    Havia um Vitorino antes. Agora, desavia um.


FIM

- - - - -

Escrevi essa história para dar de presente a um amigo. É tudo o que tem pra dizer.

O poema da casa vazia

Era uma vez uma casa
que de dia sorria.
Gargalhava e brincava, e
era só alegria.

E a tarde também
a casa Ninguém
vivia a sintonia.

Um sorria pro outro,
e era só alegria.
Surgia uma graça,
vinha então a pirraça,
desabrochava uma valsa,
e era só alegria.

Mas à noite,
a casa,
tão vazia e sem graça,
era vaiada na praça;
o inferno parecia.

Vinha uma nuvem cinzenta,
que de toda tormenta,
nem ao menos aguenta
da casa
a
sintonia.

Essa nuvem trazia,
desde os tempos de cria,
na testa, uma marca:
de amargura sofria.

Amargurada vivia,
e ia cega, vazia,
escurecer a casa,
escurecer meu dia.

E era sempre assim,
sempre assim,
todo dia.
Vivia bem a casa,
mas era só de dia.

Catarina prefere o mundo


Na busca por concentração, Catarina abriu a bolsa a procura de um remédio que pudesse lhe acalmar. Tateou às cegas, mas não encontrou nada se não o mundo de tralhas que carregava por todos os lados, há um bom tempo. Olhou para cima, em busca de alguma solução. Pois foi que achou um martelo, e com ele quis se resolver. Olha, resolução, olha, resolução. Catarina ajoelhou-se por um tempo, sorriu amarelamente e se pôs a gritar. Jogou pra fora toda aquela cor que lhe estava presa à garganta, agarrada à sua pele, arranhando-lhe tudo por dentro. A cor saiu rasgando tudo, rasgou o céu que achou pela frente, rasgou o véu que cobria as coisas. Catarina olhou para um instante, e Catarina descobriu o quanto era cega. Uma gargalhada escapou de dentro dela, de um dentro tão profundo que Catarina nunca havia tomado consciência. O fundo tornou-se inda mais fundo, mas evoluiu ao raso. E Catarina gritou novamente, sem querer gritar. Seu querer submeteu-se à desordem e ao não comando, e Catarina dessa vez sorriu. Tomou um susto quando o céu caiu sobre ela, e a chuva ameaçou derreter-lhe toda. Tremendo, Catarina levantou-se sobre as pernas, mas elas fraquejaram e se puseram a cair. Antes que caisse, no entanto, com um supetão sem precedentes, o céu puxou-lhe de volta, e Catarina foi erguida às nuvens, alheia a qualquer realidade. Mas o céu não quis carregar com ele tal responsabilidade, e Catarina foi arremessada de volta ao chão, onde bateu com força no nada; e o nada se dissolveu, e foi aí que Catarina veio ao chão. Não contente, Catarina ergueu os olhos para os lados e viu alguma coisa. Não uma só: duas coisas, lado a lado, de mãos dadas ali em frente. O mundo fez silêncio, mas o silêncio fez um pequeno esforço e conseguiu gritar. Catarina ouviu o grito, e essa distração bastou para que as duas coisas sumissem. O sumiço fez-se sorriso, e esse sorriso grudou-se ao rosto de Catarina. O mundo girou, e Catarina recebeu o impacto daquilo com maus grados, preferindo ficar alheia ao movimento. Aquela percepção acalentou o mundo de Catarina, e ela percebeu que possuia um mundo. E Catarina percebeu que poderia preferir. E preferindo, agora, Catarina retornou. Agora estava apta a ficar alheia ao mundo. Poderia preferir ficar alheia às realidades. Catarina desgrudou o sorriso, assumiu qualquer postura e recitou aos ventos:

Me deixo estar,
me deixo estar estando,
estando livre para preferir,
e preferir, vou preferindo,
sem chegar e sem sair.

Se eu não saio, não chego;
chegar eu não preciso.
Mas se quiser ficar aqui,
andando, sempre irei saber.

Se o mundo vem até mim,
é porque ele precisa.
Se não precisa,
a mim ele não vem.

Vou-me quando quero,
e quero quando vou-me.
Seu real é a loucura do meu mundo.
Não tenho os pés virados para trás,
mas ando confundindo.
Meu real é a loucura do seu mundo,
que se perde ao sorrir do sol
no mundo meu.

Luardil I

Sentei na janela.
Ela apareceu.
Vi que o dia sorriu
e a lua esmoreceu.

Sorri,
sorristes,
sorri, abriu.
A lua apareceu,
o sol partiu.

À noite,
ao dia,
se foi, sumiu.
Não vem porque desceu,
não vai porque feriu.

Setenta e cinco,
seu velho senil.
A lua esmoreceu
quando o dia se abriu.

A lua não diz
o que o sol não permitiu.
Agora vai fazer
o que nunca antes se viu.

Depois do amanhecer,
veja a ponte que caiu.
O sol já vai saber
que a lua,
pra sempre,
dormiu.

Sol amarelo

[leia como quiser, entone como quiser]

Estou apaixonado,
apaixonado pela vida.
Gosto de viver, de 
viver gostando
de tudo e
de nada.
E de tudo,
porque tudo também é
nada.

Nada me entristece o
suficiente pra que eu
perca o gosto de viver.
Nada, nada.
Estou sempre alegre porque
a alegria é minha e eu
sou a alegria.

Sou amarelo como a palavra,
como o "sim", como o amarelo,
como o sol, como o "2" e
como a felicidade, que
também é amarela
como eu.

Viver é a melhor
graça que uma
graça é capaz de
ser.
Porque não tem nada
tão bom quanto
a graça que
isso é.

E é uma graça
divertida, uma
graça encantadora,
radiante
como o amarelo
que eu
também sol.

Suspiro, e meu
suspirar é leve.
Lembro agora da
minha tia que
já foi. Não
sei por que, mas
lembro agora.

E o agora é
também amarelo,
tão amarelo quanto
alegria.
Alegria que é um
nome todo prosa e
todo próprio.
Próprio de mim que
sol amarelo.

Já é mais de
duas. Olha aí ele,
o dois. Olha o dois
que é singelo, que
é segundo, minuto
é.

Minuto não, já
são duas horas,
duas e meia,
dia trinta e um.

São duas horas, e
eu aqui.
Olho pra mesa,
vej'uma flor.
Que flor é essa?
É amarela.
Como eu, como
alegria, como se
vive. Como
eu. Que
sou amarelo.

O fim de Abrantes

Abrantes, abra-te!
Abra-te antes
que eu te abra todas as portas.

E antes que eu veja
o que tem pra ver.
Ante o precipício,
antes o malefício.

Não andes em más companhias,
Abrantes.
Antes, veja.
Veja e olhe,
olhe o que tem pra ver.

Abraço-te, Abrantes.
Abraço-te.
Abraço com braço de ferro,
de ferro despedaçado.
De ferro derretido.
De ferro condoído.

E se não te abrires,
chorar que não vou. Em vão!
Ah, não entrarei
na contramão,
ante o mal.

Ante o nada,
Abrantes,

antes o nada.
Antes do nada.

Deliro, Abrantes.
Delírios da primavera.
Da primavera que veraneia,
que chora com cheiro de flor.

Um rio de olhar profundo

E um rio profundo,
profundo,
fundo,
no fundo do rio.
E uma voz,
lá, lá,
lá,
lá no fundo,
no fundo,
fundo,
no fundo da voz.

E um olhar.

Algo que cabe numa aula de inglês

Eu passo muito tempo sem cronometrar nada,
e eu tô começando a ficar desesperado com isso.
Talvez seja por causa dessa aula, né.
O caso é que eu tô muito inquieto.
Eu tô com vontade de falar sozinho
e tô com raiva de ter que escrever.
A propósito, eu estou com raiva agora.


"Acho que é porque eu não consigo acompanhar
o seu cérebro" - Minha mão.
- MAS VOCÊ É MUITO LERDA, PORRA! - disse o cérebro.
- PARE. DE. GRITAR. CO. MI. GO!! - respondeu a mão direita.
    Enquanto isso, Mão Esquerda apoiava o queixo, que pinicava de leve.
    Mão e Cérebro continuavam brigando.
- Porra, vei, eu tô aqui em polvorosa, e você aí sendo limitada. - disse o cérebro.
- CULPE A FÍSICA, SEU INFELIZ! NÃO POSSO FAZER NADA! NÃO. TENHO. CUL. PA. DROGA!
- Eu acho melhor você falar baixo comigo. Posso demitir você quando quiser.
- Você não teria coragem - respondeu, triunfante, Mão Direita. - Além do mais, tenho boa parte das ações da Memória, então fique na sua. Mas nós trabalhamos por um Bem Maior, então cale essa boca.
    Cérebro ficou uns minutos em silêncio. Quer dizer, quase silêncio. Cérebro não cala a boca nunca; mesmo enquanto está falando com alguém, está dando ordens a, geralmente, centenas de outras pessoas, através de um sistema de comunicação extremamente eficiente.
    Na verdade, ele é um workaholic, insuportável, mimado, estressado, irritadiço e brilhante administrador. Cérebro também é rei, mas em outro mundo. Dos funcionários desse prédio, ele e os irmãos gêmeos siameses chefes de segurança Olho Esquerdo e Olho Direito, são os únicos que coexistem em mais de um mundo.
    A briga entre Cérebro e Mão Direita passou; Mão se acalmou, mas Cérebro não se acalma assim tão fácil. Agora, estava brigando com a Perna Direita. Talvez ele não goste muito desse pavilhão do prédio.
    A discussão agora era com o Pescoço e Costas. Essa dupla geralmente dá muito trabalho ao chefe. Muito, mesmo. Talvez seja melhor, a julgar pelo nível a que chegou a briga com a mão, não enveredar por essa relação.
    Enquanto isso, Mão Esquerda, quase sempre inútil, dava uns passeios pela cabeça, que agora estava apoiada nela.
    Pela primeira vez nos últimos quarenta e cinco minutos, Cérebro baixou um pouco a crista e se acalmou.

De quem não sei a história

No galho de uma árvore,
atrás de uma pedra,
dentro de uma caverna,
no fundo do mar,
na sombra da lua,
em cima da folha,
ao lado do vento,
queimando com o fogo.

Ali está ele,
e também pra lá,
e atrás de você,
e à sua frente.

Mas você não vê.
Seus olhos não sentem.
Mas você cheira.
Sua alma percebe.
E você chora, sem querer chorar,
seu corpo treme, bravo guerreiro.
Suas pernas enfraquecem,
sua força se vai,
e você não sabe o que fazer.

Se aproxima devagar,
rastejando como uma serpente,
esquivo, mesquinho,
cruel, terrível
como a serpente.

Se enrola em você,
e te pressiona,
te diminui,
te apavora,
te entristece.

Sua presença é assustadora,
e ele não precisa de corpo.
Mas pode ser alto como uma montanha,
ou diminuto como um anão.

Mas ele vem.
Ele vem sempre que pode,
porque é livre pra ir onde quiser,
para ser o que quiser.

É tudo isso.
Assustador e terrível,
apavorante e caçador.

Mas há um porém.

Se ele vem e vê,
vê com todo o corpo,
aquele do segundo cume,
aquele das copas vermelhas,
estremece, entorpece,
enfraquece, enlouquece.

Tem medo, mas enfrenta.
Então observe.
Observe a si mesmo.
Olhando para si
você vê,
vê com todo o corpo,
quando ele chegar.

Fé no café

.

Ca fé eu vou,
e café eu vou tomar.
E se não,
dou-te uma surra de cinto,
pois sabes bem que eu não minto.
Um dia ainda vou me esbaldar!

.

A narrativa de Vera Vieira

Vera Vieira 
era uma mulher sem eira nem beira
que um dia foi numa feira
 pra vida tentar melhorar.
Chegou lá e viu alguém 
que também não via um vintém
há mais de dez anos brotar;
então ele disse:
"sai daqui, ô doideira, 
pois aqui nessa feira 
pra ti que não há lugar!".

E então Vera Vieira 
era uma mulher sem eira nem beira
que um dia foi ao campo pra vida tentar melhorar.
Chegou lá e viu, num canto,
encolhido dentro de um manto,
sob a sombra de um 'por enquanto',
um rapaz desabando a chorar.
Aproximou-se, espiando,
recuou, no entanto,
pois foi que ele achou de gritar:
 "sai daqui, ô desgraça, 
que aqui minha vida é de graça, 
já sujei foi meu nome na praça, 
e a ti que não vou ajudar!".

E então Vera Vieira, 
uma mulher sem eira nem beira, 
cuidou de vagar pelo mundo, tentando uma vida arrumar.
Amarrou fita no braço, 
arrumou um rapaz do cangaço, 
pegou muito boi pelo laço,
e um concluir dominou seu pensar:

"Passei pela feira,
levei foi uma boa rasteira,
depois fui ao campo,
pra vida tentar melhorar.
Lá um rapaz, no entanto,
ao invés de secar o meu pranto,
tratou de negar-me um encanto,
e mandou, como uma vaca, ir pastar.
Passei fome,
passei frio,
passei dias e dias sob um sol cruel e ardil.
Mas uma vez ao relento,
com o céu de testemunho atento,
lamentei por ter tanto talento
pra minha vida poder arruinar.
Vou-me daqui, correndo,
pois é noite e ninguém tá vendo,
assim não posso atrapalhar."

Vera Vieira,
a mulher sem eira nem beira,
com uma lágrima de bebedeira,
morreu na última terça-feira,
sob a égide lunar.

Consequências da reflexão

.

Um dia vi flores no lixo
e fiquei sem entender
como tanta praga no mundo
vive dizendo sofrer.

.

O abismo

O pior ali era o branco. O branco, o branco. O branco tão branco e tão assustador. Aquele branco por todos os lados. Não me faça voltar pra lá! Mas é o branco que está aqui, e o branco não ouve. O branco não perdoa, não redime, não acolhe. Ah, angústia. Quero arranhar as paredes, preciso arranhar algo. Preciso cortar. Preciso cortar. Uma tesoura! É o branco que está aqui, e o branco não ouve. O branco é mau. O branco é pior que o preto. O preto te traz de volta pra si. Faz voltar, e voltar. E voltar. E no preto você se volta; você se olha. E tudo em você é preto, só preto, e é aí que você consegue. Mas o branco força a sua saída. Você não quer voltar, não quer. Mas você tem. Não! É o branco que está aqui, e o branco não ouve. O branco é branco, e não permite o preto. Mas você quer o preto. Você quer você. Você se quer, e você é o preto. E tudo em você é preto, só preto, e vai ficando preto. O branco tenta. Não! Você não é tão forte assim. Não! Você tenta. Tenta, tenta. Vá para o preto, vá até o preto. Entre, entre. Volte. Não! É o branco que está aqui. Volte! Preto. Preto e só preto, sem branco. Vê? Consegue? Tomou a consciência num susto, e viu-se em si. Viu-se voltado para si. Ali é tudo preto, tudo você. E o medo do branco? Nada. Ali é só você. Olhe para os lados e se veja. E se veja. E se volte. E se veja. E se viu. Estava diante de si. O que seria agora? Que seria? Que será? Será eu, será você. Você? Eu. Se olhe, me olhe. Algo errado? Olhe de novo. Onde está você? Você sou eu? Você sumiu. Estou aqui. Você se perdeu, você se perde. Você não é ninguém. Preto. Um outro preto, um preto estranho. Você não é ninguém. Preto! Preto! PRETO! Ah, angústia. Quero arranhar as paredes, quero cortar algo! Branco. Branco. Não, não. Preto. O outro preto, o primeiro preto. Não esse: o outro! Volte! Olhe para si! Olhe! Não quer, não é? Não quer! Se não quer, te mostro outra coisa. Vê ali naquele canto? Vê aquela felicidade, não vê? Vê! Sinta. Sinta. Você não pode sentir. Não pode sentir. Então foge. Foge e se deixa fugir. Deixa que o façam fugir. E foge. E foge dela, e ela foge de você. Foge de você assim como o amor, ali naquele outro canto. Vê? Vê! Ele foge de você. Foge porque sabe que tem que fugir. Foge porque você foge. Foge porque tem que fugir. Porque você não é nada. E se perde de novo. E se perde. E se perde aqui, e se perde lá fora. Lá fora onde tudo é perdido. Onde tudo está perdido. Você se perde com os outros. Você se perde mais que eles. Você não serve. Não serve pra eles. E nem pra si. Lá fora, você não serve nem pra si. Não serve, não serve. Não serve porque você se perde. Se perde. Branco. Se perde no branco. No branco, no branco. Se perde no branco porque é o branco que põe tudo a perder. O branco. Não! Você não quer. Você luta. Você tenta lutar. Mas você é fraco. O branco. O branco, o branco. O branco tão branco e assustador. Você não quer! Não! Você não quer! Não quero! Mas é o branco que está aqui. O branco não ouve.


Dez pras onze

Acho que a saudade que eu tenho do ano de dois mil e onze nunca vai ser superada. Nunca, mesmo. Dizer que foi mágico é muito pouco... Extremamente pouco. É uma saudade tão estranha... Tão grande, tão pontuda, tão amarelo-reluzente. Dois mil e onze reluz tanto na minha cabeça... Reluz em formato de túnel. É preto e tem um túnel de raios amarelos, de onde vêm todos os sentimentos possíveis. E é muito confuso. É muito confuso. Mas é bom. Gosto de sentir toda a mistura de lembranças. É excelente. Dá um calorzinho, um pensamento de "Ah, poxa vida", e eu me sinto frágil; tão frágil que me agarro às paredes do túnel, sempre. E essas lembranças vêm e voltam em um mesmo segundo. Não é algo que se estenda por um dia inteiro; não chega a completar dois minutos. Mas é tão forte que, sei lá. Sei lá. Foi um ano de experiências incríveis. Conheci e reconheci um bom número de pessoas impressionantes; impressionantes dos dois extremos. Viajei pra lugares fantásticos e experimentei algo tão novo que me surpreendi com a maneira com que lidei com a situação. Me roubaram um órgão e uns muitos sentimentos e, poxa vida, foi fantástico como não havia sido até então. Em dois mil e onze estão vários dos melhores minutos que eu já vivi. Fui tão feliz e triste, tão responsável e vagabundo. Experimentei o melhor e o pior de cada um com quem estive, e acho que esse seja o ponto principal da beleza que foi aquele ano. Senti tanto cada pessoa que esteve comigo, de uma forma tão natural e simples, que acaba fazendo falta, não sei exatamente o quê. Nunca tinha sido e estado tão vivo. E foi realmente o meu ano, como eu tinha dito no final de dois mil e dez. Dois mil e onze (2011) reorganizado, pode ser 21/01, uma das datas do meu aniversário. E foi... Dois mil e onze foi meu, e eu fui dele, de um jeito que, poxa vida, sei lá.


Ei, Barnabé!

No rodapé, Barnabé,
me joguei sem ter fé,
de que o meu quente café
alguém logo traria.


- E trouxeram?
Doido, eh, Barnabé?
Café não trazem.
Trazem água,
trazem leite,
trazem gozo,
mas o café,
o quente café,
o preto café,
o rico café,
não trazem.
Escondem, também.


- Amém?
Além!
Vintém
pra ninguém.


Barnabé:
café.
Ó: c a f é.
Ca fé.
Café é fé, Barnabé.
Café com fé.
Café.
Com fé.

O Pretérito-perfeito da Rua

Saiu pela rua,
bateu com a cabeça na lua,
rodopiou como uma perua
e caiu na navalha.


Faiscou numa ponta,
desconta! Desponta
da minha frente.
Interesso-me pelo céu,
e ao léu, de véu,
sem pé, não dou conta,
de que o mistério se encontra
pra lá,
além
de mim.

O vento e a sua cota

-
O fracasso me subiu à cabeça.
O fracasso me subiu à hic! 'beça...
O fracasso me subiu a beça.
O fracasso hic! subiu a beça...
Hic! fracasso hic! a beça.
Roarrrr...

Bocejo.
G o t e j o
e gracejo,
desejo e, no ensejo,
beijo.

O vento.
O vento de cores frias.
O vento tem cores frias, e sons distantes.
Um rosto tem dois lados;
de um deles o sol e seu calor,
               do outro, depravado,
             o furor,
       do amor desejado.


E frio.
O vento é frio.
A morte é fria.
A morte é fúria.
Mas acalma.
Acalma a alma,
Acalma.
Acalma como o vento.

Que 
caiu.
Feriu
e grunhiu,
m a s s e n t i u,
m a s p a r t i u,
m a s c a i u.
De novo.


E o motivo é sabido:
caminhar não vale a pena.
E não o sei.
Vem aqui que eu te amo;
saber, também não sei.
Falar, também não sei.
Pensar, soar, mostrar,
Dotar; só me vem um esgotar
que de falar já me desbota,
como o vento e a sua cota
de cores frias.
De cores frias,
De cores frias e furiosas,
de almas furiosas,
de almas frias,
de almas de vento frio,
do vento frio e de sons...
De sons...
Daqueles distantes; bem, bem
dis t a n tes.

Sorriso cachaça

     Bem, estava bêbado e não podiam esperar muito dele. 
    Então saiu cambaleando pela rua apinhada de gente, entre os faróis ofuscantes dos carros e o barulho ensurdecedor daquela disputa surreal de sons. Cego, surdo e tonto, resolveu mergulhar de vez na doideira. Esbarrou em alguém que o empurrou com uma força assustadora - de grandes braços e feias palavras - e saiu girando e girando, sem conseguir ficar um instante sem esbarrar em algo e ser repudiado. Foi convivendo com as agressões pela avenida que parecia não ter fim, até dar de cara com o escuro e com o silêncio. Ora, estava de olhos fechados todo esse tempo! Desatou a rir, e riu por muito. E esqueceu de abrir os olhos. Caiu na gargalhada de novo, dessa vez por mais tempo. Abriu-os por fim e de fato deparou-se com o breu à frente. Demorou para focalizar uma luz distante, no fim do túnel. Ora, que túnel? Riu mais uma vez. Como estava engraçado hoje! É a cachaça. Naturalmente ele não é nada engraçado. Alguma coisa passou o rodo nessa brecha de realidade, e ele voltou a ser o bêbado divertido que sempre deveria ter sido. Seus olhos agora viam a luz com uma clareza meio duvidosa.
    Ensaiou levar um pé à frente do outro, mas a rua caiu pra esquerda e ele não pôde recusar companhia. Desaprendera a andar nesses últimos segundos? Esperou a rua descer da gangorra e pouco a pouco foi levantando. Voltou a encarar a luz, que agora parecia mais forte. Ou será que na queda fora projetado para frente sem sentir? Não saberia dizer. Resistindo a um forte e irracional impulso de cair na gargalhada, recomeçou a andar, dessa vez com um sucesso surpreendente. Não... Conclusões precipitadas; saiu andando em vários ângulos alternados, e a rua novamente o chamou para o chão. Estava começando a se irritar. Xingando alto de mais (ora, não havia ninguém ali, havia?), resolveu ir se arrastando. A luz começou a bruxulear, ou era a cachaça querendo se aparecer de novo.
      Estava chegando perto quando começou a chover. Não era possível que ele não fosse chegar à luz. Ora, é claro que chegaria. Resolveu encarar a embriaguez de frente. Parou e sentou, sem tirar os olhos da luz, e começou novamente a levantar. Aquela vontade imbecil de rir não ia embora nunca. A chuva pareceu lavar um pouco da cachaça em sua cabeça; alguma coisa dentro dele sobressaltou-se com essa percepção. Agora já podia andar de novo sem tantos estragos. E ele foi andando, de olho na luz, por um tempo que lhe pareceu longo de mais. A chuva caía cada vez mais forte, e seus passos se acertavam mais e mais à medida que aquelas gotas enormes acertavam sua cabeça. Foi como se um pára-brisas limpasse sua visão. Mais uma vez algo dentro dele reboou um lamento distante.
      A chuva caía tão forte que era difícil enxergar muito à frente. A luz começou a sumir entre as gotas, e ele começou a correr em direção a ela. Correu, correu e correu. E esqueceu. Que diabos estava fazendo? Virou-se e viu uma luz. Na verdade, duas. Fortes, ofuscantes, impiedosas e iminentes. O rapaz sóbrio foi arremessado para longe com uma força rigorosa.


No chão da rua

    Ali à beira da rua, o mundo girava. Levantou os olhos e ficou assim por um longo tempo. Carros e pessoas a ignoravam, como sempre o faziam. Arriscou e, sem mexer o resto do corpo, inclinou  a cabeça para o lado. Seus olhos fisgaram um chão distante, sujo e frio. Estava parada na borda do paralelepípedo quebrado, com os pés descalços na terra. Gorda como era e tonta como estava, certamente não conseguiria permanecer por muito naquela pose ridícula. E tudo a ignorava. Até o Sol, que aquecia o outro lado da rua - onde não havia ninguém - e não o lado em que ela estava. Algumas conclusões incomodavam mesmo depois de tão batidas.
   Incapaz de se mover, e suficientemente insignificante para ser ajudada, resolveu que seria melhor voltar a encarar o céu. Foi quando percebeu, quase de imediato, que havia uma nuvem cobrindo o Sol. Aquilo pareceu desanuviar sua mente, por um segundo demasiadamente fugaz. O banho de água suja que o ônibus deu-na puxou a vista de volta à rua e desorientou ainda mais a coitada que, cambaleando e sufocando, foi caindo e caindo, mais rapidamente do que qualquer outra pessoa. O xingamento do motorista do carro atrás do ônibus alcançou seus ouvidos como um distante "Sai do meio da rua, maluca!", mas nem por isso mais brando.
     Os cotovelos queimando travaram batalha com o chão, tentando erguê-la dali. Quando expulsou a areia dos olhos, flagrou uma mulher repreendendo o filho por roubar uma espiadela curiosa daquela coisa ali no chão. Foi obrigada a voltar a prestar atenção à batalha quando os cotovelos sofreram a primeira baixa; o direito escorregou, rolou e sangrou ainda mais. Repetindo o xingamento do motorista, tentou erguer-se de novo. Nessa e em todas as vezes posteriores um, outro ou os dois cotovelos escorregaram, e agora estavam sangrando de verdade. Era gorda e estava cansada. Suada, cada vez mais poeira e terra grudavam nela; muito disso vinha dos carros e dos sapatos das pessoas. Ou do vento, que também não gostava dela.
    Inútil e sem forças, rendeu-se àquele chão cruel e castigador. Deu um muxoxo agressivo e aleatório, gritou alguma coisa e ficou ali esparramada, sem coragem de olhar o céu.