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Um deus com olhos de água fria
Um deus sem saber de tudo
Que nem de nada sabia.
Eu sonhei com um deus, um dia
Um deus todo em p e d a ç o s
Um deus que não tinha os traços
Felizes de quem dá bom dia.
Eu sonhei com um deus, um dia
Que não sabia ser amado
Um deus que afirmaria: o quebrado
bonito lhe parecia.
Eu sonhei com um deus, um dia
Um deus burguês só de tarde
Que conhecia onde arde
A ferida não cicatriza
da rima estranha e quebrada da
Mão de tinta arredia.
Eu sonhei com um deus, um dia
Um deus que não era crente
Nem nele, e na sua mente
vagava, criava e dormia.
Mas eu sonhei com um deus, um dia
De fala meio incerta
De guarda inteirinha aberta
Até gente parecia!
Mas eu sonhei com um deus, um dia
Que não sabia mandar
Que não podia governar.
Será que pra deus servia?
Mas eu sonhei com um deus, um dia
Que não servia
Um deus que não era nada
Um deus da periferia.
Mas eu sonhei com um deus, um dia
Falante do próprio dialeto
Tão mais esperto que o Beto
Que o João e que a Maria
Que todos os nomes comuns!
Que todas as umas e uns.
Mas eu sonhei com um deus, um dia
Que de Divino só tinha o sobrenome
Com a divindade e a maiúscula
Que lhe faltaram ao pronome.
Mas eu sonhei com um deus, um dia
Que sabia estar sozinho.
Viria todo murchinho!
De sua rima viva
De rima rica e preciosa
De rima boa e gostosa!
E de barriga vazia.
Porque eu sonhei com um
poeta
com cara de
poesia.

