Desde as seis da manhã, um helicóptero zanzava ali por perto do prédio onde Alice morava; indo e vindo, por vezes estando longe de mais pra ser ouvido, mas voltando depressa ao campo de audição dela e certamente de todo o restante do quarteirão. Ela tentou, o máximo que pôde, lutar para ignorá-lo. Mas tal qual uma mosca nojenta que ronda sua orelha numa noite quente sem ventilador, o helicóptero foi mais forte; e Alice foi atirada para fora da cama. Foi-se arrastando, quase sem forças, até o banheiro. E encarou-se no espelho. Não aguentava ver um, por um batalhão de motivos. Por um segundo, pairou uma dúvida estranhamente plácida. Mas uma mosca não teria fôlego para fazer o que ela fez.
Não bastaria pentear os cabelos, para alguém que fora tanto, um dia. E Alice se viu empacada, com a mão a meio caminho do pente, sem saber o que fazer. Algo mais forte reagiu, e ela saiu do banheiro antes que fosse tomada pela culpa. Na sala, viu-se retratada pela bagunça descomunal por todos os lados. Estava em um processo de entrega, e Alice jogou-se em cima de si mesma, no sofá. Caiu meio desamparada, meio largada de lado, meio ao relento na própria casa. A Avenida Fagundes Varela nunca pareceu tão movimentada; a vida nunca pareceu tão duvidosa. Uma dor rósea afunilou os sentimentos de Alice, um sorriso amarelo escancarou-a para um mundo.
Ali no teto da sala, as coisas foram aparecendo. Às vezes lutava para afastá-las, entocá-las em algum canto. Por muitas vezes, vestidos, sorrisos, festas e namoricos cumpriam bem o seu papel, e Alice se via acolhida no meio de tudo aquilo, afastada e perdida de si. Até que nada mais era capaz de aparar a cor rosa que vinha tomando sua vida; e então ela se isolou. Porque precisava se isolar. E um apartamento às escuras é capaz de abafar uma algazarra como poucas outras coisas.
Alice magoou muita gente. E magoava a si mesma, magoando os outros. Doía ver o próprio rosto no espelho; era quando via a extensão do mal que havia feito. Cada rosto daqueles assumia a sua fisionomia. E então ela e os fantasmas eram um só. E o arrependimento crescia a cada encontro desses.
O céu do lado de fora foi-se aquietando devagar, para reativar-se aos poucos, preparando-se para a vida noturna da cidade. Alice precisava respirar. Doeu para levantar, doeu para atravessar a sala, doeu ligar a luz. A própria dor doeu. Ao lado da porta estava a sua camisa com dois números a mais, e ela vestiu. No balcão do bar estava uma garrafa de vodka, e ela pegou. Saiu sem trancar a porta.
Lá fora estava claro de mais. Por um instante, Alice brilhou junto com as luzes da rua e das lojas, como antes. Mas apagou-se; foi atingida por um mundo mais real do que podia aguentar. Tudo acontecia alheio a ela; tudo existia independente dela. Alice foi andando, e tomou o primeiro gole. Ninguém se importou, e ela bebeu o segundo e depois o terceiro. Como se acertado, o semáforo fechou quando ela foi atravessar a rua, já meio perdida entre o sexto ou sétimo. A praça veio até ela como se a esperasse. O rosto sorridente de Drummond a saudou, meio caridoso, meio irônico, e Alice sentou-se ao seu lado. Naquela áurea roda de brasileiros, Alice encarou o chão. Viu todos os rostos de novo. E cada uma daquelas estátuas assumiu a expressão de desapontamento que sempre temeu ver. E o rosa explodiu de dentro dela.
A Avenida Fagundes Varela nunca foi tão movimentada; a vida nunca foi tão duvidosa. O caminho de pedra à esquerda levava a uma ponte, de onde se tinha uma visão deslumbrante da parte baixa da cidade. À noite, então, poucas coisas brilhavam tanto quanto aquelas ruas largas, retas e compridas. Alice não soube como resistir. Alice precisava respirar. Um rapaz cutucou a namorada e deu um risinho quando viram aquela doida passar as pernas para fora da grade. A garrafa foi primeiro, levando o primeiro grito.
Em silêncio, Alice se entregou aos holofotes. Rosa foi o que ficou.
- - -
Texto baseado na letra/melodia de Hey little rich girl, da banda The Specials, regravada por Amy Winehouse.