Sol amarelo

[leia como quiser, entone como quiser]

Estou apaixonado,
apaixonado pela vida.
Gosto de viver, de 
viver gostando
de tudo e
de nada.
E de tudo,
porque tudo também é
nada.

Nada me entristece o
suficiente pra que eu
perca o gosto de viver.
Nada, nada.
Estou sempre alegre porque
a alegria é minha e eu
sou a alegria.

Sou amarelo como a palavra,
como o "sim", como o amarelo,
como o sol, como o "2" e
como a felicidade, que
também é amarela
como eu.

Viver é a melhor
graça que uma
graça é capaz de
ser.
Porque não tem nada
tão bom quanto
a graça que
isso é.

E é uma graça
divertida, uma
graça encantadora,
radiante
como o amarelo
que eu
também sol.

Suspiro, e meu
suspirar é leve.
Lembro agora da
minha tia que
já foi. Não
sei por que, mas
lembro agora.

E o agora é
também amarelo,
tão amarelo quanto
alegria.
Alegria que é um
nome todo prosa e
todo próprio.
Próprio de mim que
sol amarelo.

Já é mais de
duas. Olha aí ele,
o dois. Olha o dois
que é singelo, que
é segundo, minuto
é.

Minuto não, já
são duas horas,
duas e meia,
dia trinta e um.

São duas horas, e
eu aqui.
Olho pra mesa,
vej'uma flor.
Que flor é essa?
É amarela.
Como eu, como
alegria, como se
vive. Como
eu. Que
sou amarelo.

O fim de Abrantes

Abrantes, abra-te!
Abra-te antes
que eu te abra todas as portas.

E antes que eu veja
o que tem pra ver.
Ante o precipício,
antes o malefício.

Não andes em más companhias,
Abrantes.
Antes, veja.
Veja e olhe,
olhe o que tem pra ver.

Abraço-te, Abrantes.
Abraço-te.
Abraço com braço de ferro,
de ferro despedaçado.
De ferro derretido.
De ferro condoído.

E se não te abrires,
chorar que não vou. Em vão!
Ah, não entrarei
na contramão,
ante o mal.

Ante o nada,
Abrantes,

antes o nada.
Antes do nada.

Deliro, Abrantes.
Delírios da primavera.
Da primavera que veraneia,
que chora com cheiro de flor.