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A vez de Julia

     O telefone tocou ao longe. Julia abriu os olhos de repente, tonta e sonolenta, e desceu os pés da cama. Esperou o equilíbrio chegar e saiu andando do quarto; o sol passava pelos furinhos da cortina, pintando a sala de amarelo fraquinho das seis da manhã. Atravessou o cômodo e atendeu.
      - Julia?
      - Sim.
      - Você está sozinha?
      - Quem está falando?
      - Sou eu, Liane. Está sozinha?
      - Ah, Liane, olá. Estou sozinha, sim. O que houve?
      - A porta está trancada, não está?
      - Está. O que houve?
      - Ainda bem... Ainda bem. Julia, vejo você mais tarde.
      - Liane, o que está ac...?
     A ligação caiu. O estômago de Julia estava tenso de ansiedade. Foi até a porta certificar-se de que estava mesmo trancada, e constatou, com um lampejo terrível de medo, que não estava. Seu cérebro quase entrou em colapso quando forçou-se a entrar em ação, movimentando as engrenagens e reconstruindo os últimos momentos antes de dormir. Estava vendo um programa sem graça de sexta à noite na televisão, e acabou cochilando; acordou horas depois, já de madrugada, levantou do sofá, foi até a cozinha e depois voltou à sala, trancou a porta, apagou as luzes e foi deitar. Uma contração violenta em sua barriga sacudiu o corpo quando a preocupação veio: a madrugada. Passara horas dormindo no sofá, com a porta destrancada, completamente vulnerável. Burra! Mas a porta só abria por dentro. E se não a tivesse fechado direito? Antes de sentar no sofá para assistir o programa, atendera o entregador que viera trazer a pizza. Agora ela estava definitivamente com medo, e correu a virar de costas para a parede.
     Ali de onde estava, de olhos arregalados, Julia podia ver quase todo o apartamento. A sala não muito grande estava quase encoberta pela estante que fazia a divisão entre o pequeno hall de entrada e o restante da casa; podia ver a cozinha toda, graças à reforma que fizera no mês anterior, para ampliar a sala. Ofegando, Julia aproximou-se da banquinha e apanhou o abajur de flores como arma; rumou, pé ante pé, na direção da sala, cuidando para manter-se oculta da visão do quarto. Checou atrás do sofá e da estante, atrás do balcão da cozinha, atrás da mesa e no vão entre a geladeira e a parede. Não havia nada ali. Inclinou-se, e mantendo as costas contra a parede, sem girar o corpo, passou de leve a chave e trancou a porta do banheiro.
      Ainda tensa, começou a se arrastar de volta ao quarto, sem conseguir afastar os pensamentos terríveis de que pudesse ter passado todo esse tempo à mercê de algum bandido. Deslizou para dentro, agradecendo por ter o passo leve, e abaixou-se para olhar debaixo da cama. Um elefante saiu de cima dela ao ver o espaço vazio. Ergueu-se, um pouco mais tranquila, e foi checar o guarda-roupas. Porta a porta, ela deu de cara apenas com suas próprias coisas bem arrumadas e em seu lugar, como sempre havia deixado. Atrás da porta do quarto também não havia ninguém. O telefone tocou mais uma vez, sobressaltando-a. Pousou o abajur e correu a atender.
       - Liane? - disse.
       - Não, é Marco. Liane não está aí com você?
       - Não está, não. Ela me ligou agora há pouco. Marco, o que está havendo?
       - Como assim?
    - Liane me ligou preocupada, perguntando se eu estava sozinha e se a porta estava trancada.
       - Ah, merda...
       - Marco, por favor, me diga o que está acontecendo!
       - Não está acontecendo nada... Julia, vejo você mais tarde.
       Irritada e apreensiva, Julia bateu o telefone. Virou na direção da sala, indo à mesa procurar o celular na bolsa. Pegou o aparelho, e na busca pelo número de Liane, sentiu o corpo retorcer de dor quando algo irrompeu contra suas costas, queimando-a. Jogou-se para frente, fugindo do contato com o ferro em brasa, e virou-se para ver o que a tinha acertado. Com os olhos embaçados e cheios de lágrimas, a incredulidade sobressaiu muito à frente da dor da queimadura, quando viu quem estava ali, com um sorriso cruel e os olhos penetrantes de sempre.

Um guarda-chuva para Liane em sua primeira parte


Eu tinha um guarda-chuva, naquela época. Bem, eu mesmo o fiz, sabe? Não lembro direito como, mas estou certo de que levei bem umas cinco semanas para deixá-lo pronto. Foi uma verdadeira festa quando terminei. Liane ficou extremamente radiante e deu aquelas cinco piscadas que eu adoro desde sempre. Está vendo aquela foto ali? Ao lado das xícaras na prateleira. Não, esta foi em Mississipi, ano passado. Estou falando daquela, ao lado da que você apontou, com a moldura quadriculada. Isso. Sim, eu e Liane tiramos essa foto há dois anos, se não me engano, no dia que ela soube que estava grávida. Você não faz ideia de como eu fiquei, quando ela me deu a notícia. Desculpe não contar a maneira que ela usou para dizer, mas há alguns anos fizemos uma lista de informações que jamais compartilharíamos com outras pessoas, sabe? E isso está entre os primeiros itens. Enfim, deixe-me dizer sobre esta foto. Você pode ver que ela está com o cabelo preso de um jeito engraçado, não é? Ah, sim, fui eu quem fiz esse penteado nela. Tenho a consciência de que não ficou lá uma beleza, mas, perdoe-me a franqueza, tudo fica bem em Liane. Pode rir da minha cara; um dia você vai saber exatamente o que estou falando, se tiver a mesma sorte que eu. Pois bem, vamos continuar na foto. Dá pra ver também que eu a estou segurando pelo ombro, não dá? Foi ela quem montou as posições. Liane costumava ser bastante criativa com fotografias, mas essa, tenho que admitir, não foi muito bem... Não interessa, ficou boa. O que você disse? Ah... Bem, eu... Desculpe. Perdão, preciso ir agora.