Havia um Vitorino


Uma história de Vitorino, redigida por Leonardo de Andrade, pelo Tempo e pelo próprio.
Com uns e outros auxílios.
E atrapalhos também.


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Um ambiente e uma metáfora às vezes podem ser a mesma coisa.

     Lá se vai o meu ônibus.
    São... Uma e quatorze da manhã. É sábado. Hoje deve ser algum dia entre quatorze e dezesseis. Eu não tenho certeza. Eu não tenho certeza de muitas coisas, a propósito.
   Mas de uma, eu tenho. E essa é absoluta. Eu tentei avisar a ele. Desfilei uma coleção completa de argumentos sobre o quão é aparentemente inapropriado dar de presente uma história dessa. Oras. Juro que tentei. Mas desculpe, Thiago (ouvi ser esse o seu nome), mas não consegui ser suficientemente convincente. Para me desculpar formalmente, escrevi algumas linhas de dedicatória, pra enfiar entre as páginas quando ele não estivesse olhando. O papel deve esta aqui em algum lugar...
  Há uma hora atrás, Vitorino morreu. Não se sabe a causa, não se sabe ao certo o lugar. Não interessa, no fim das contas. Nada disso importa. O fato é que ele perdeu o ônibus. Não poderia ser diferente, naturalmente. Aqui, voa quem pode. Lá também. Mas é um ônibus bom, até. Sabe, desses com ar-condicionado e bancos estofados. Ainda custa dois e oitenta.
    O tempo até que está bom, hoje. Eu acho, particularmente. Do lado de lá, parece que vai chover, mas pra cá, o céu está limpo. Espero que o próximo não demore. Estou começando a ficar com fome...
   Se você pechinchar, até paga mais barato. Mas observe o banco. Aquele ali, pintado de amarelo. Vitorino sentou ali assim que percebeu que morreu. Francamente. Olha esse tipinho. Debochar da morte é heresia. Quer dizer... Vitorino morreu ontem, mas não se lembra de quê. Isso você já sabe. Eu estou tomando seu tempo, porque quando Vitorino começar...
   Ah! Está ouvindo? Aquele rapaz no carrinho passou tocando Roberto Carlos. Opa. Roberto Carlos. Quantos anos eu tenho? Digo: eu tive? Ai... Eu tive uma namorada, sabe. OLHA! HAHAHA! Eu tive uma namorada. Bicho... Há mulheres que se enroscam...
     Nós nos conhecemos num trem. Ai, ai... Opa. Está vendo aquilo ali? Então quer dizer que essas telas existem mesmo. A gente realmente pode repassar a vida toda. Talvez eu possa saber de que morri...
   Vitorino conheceu Silvana em um baile. Desses que as pessoas realmente dançam. Ele olhou para ela; ela olhou de volta. Um chegou perto do outro, as mãos se triscaram e se afastaram rapidamente. Envergonhados, foram chegando mais perto. O primeiro beijo só aconteceu nove meses depois.
    OPA! Duvido que isso seja verdade. Pois saiba que eu nem estava falando da Silvana, para o seu governo. Nem sei quem é essa daí... Eu me recordei foi de Edileuza. Ai... Olha, está começando a aparecer ali na tela. Preste atenção! HAHAHA! É engraçado como nos conhecemos.

   Era um trem, lotado, socado de gente. Balançava, balançava, e todos se empurravam. Sem querer (querendo). Havia um Vitorino Malvino da Luz Amaral de pé, todo engomado, cabelo partido de lado, a mala pendendo ao chão. Havia uma mulher morena, pele reluzente, magra no espelho, desmagra na real. De cara fechada, a mulher via o mundo correr pra trás, enquanto estava ali parada no trem. Olhou a mala ao seu lado, e depois o pé do rapaz Vitorino, que estava encostando no seu. Isso foi por cinco vezes. Na quinta, Vitorino indagou:
– A senhora acha seu pé bonito?
– Não. – rebateu Edileuza, só com o rosto, sem dizer palavra.
– E eu concordo. Então não deve ser por admiração que eu estou olhando para ele.
Pausa.
– Já lhe ocorreu que eu possa estar cuidando para não pisar no seu pé e causar, com isso, um inferno dentro desse trem?
“Dadas as palavras acima, redija um romance”, fez o Tempo, e Vitorino e Edileuza, obedientes da vida, redigiram. Com um desempenho invejável, diga-se. A virilidade de Vitorino permitiu-lhes quatorze filhos.

    Caramba, é verdade! Eu tive filhos com Edileuza! Sabe como é, né... Eu cheguei nela, falei, aí pá, plis, caixinha de fósforo... Espera. Quantos anos eu tenho? Quer dizer: eu tinha? Talvez essa televisão me ajude...
    Vitorino conheceu outras mulheres, além dessas duas. Sabe, ele já teve uma boa aparência. Agora tem essas coisas espalhadas pela cara...
       OPA! Que coisas?
     Nada, Vitorino. Sabe de quem acabei de lembrar? De Vanusa. Você lembra daqueles peitos, Vitorino? Vitorino, Vitorino. Se eu fosse você, estaria profundamente arrependido de ter morrido, e perdido aqueles peitos.
     Poxa, é verdade. Vanusa tinha os melhores peitos que uma pessoa é capaz de ter. Eles eram macios, e sedosos, e quentinhos, e... OLHA! Está aparecendo ali na tela! EPA, tira o olho, parceiro!

    Era um pátio externo. Vanusa, uma mulher que já foi musa, agora jazia no lixo. Catava papelão e precisava sobreviver. Comia numa feira que dava comida aos pobres na hora do almoço. Certa feita, havia um Vitorino Alvino da Muz Lamaral de pé, todo desengonçado na fila do almoço. Não era pobre. Não era rico. Bem, então por que não, né? Vanusa era uma dessas mulheres faca na bota. Não levava desaforo pra casa, nem para lugar nenhum. Quando os rapazes vieram roubar seu papelão, ela enfrentou cada um, mas era apenas uma, e ela caiu no chão. O rapaz Vitorino foi ajudá-la a se levantar. Disse-lhe que iriam juntos à delegacia, e completou:
– Suja como está, é provável que eles te prendam assim que puser os olhos no edifício. Seria considerado atentado ao pudor. Vá tomar um banho.

      E depois dessas palavras insanas, Vitorino conheceu os peitos de Vanusa, antes mesmo de irem à delegacia. Foi ele quem a ajudou no banho. Não é preciso dizer por quê eles eram quentinhos.
     Eu ficaria agradecido se não ultrapassasse o limite do meu respeito. Ainda mais agora que eu estou morto. Ainda mais agora? Será que eu era velho? Talvez eu possa ver na tela, assim que eu achar o controle...
      Não sei quem disse que morto merece respeito. Ok, desculpe, Vitorino. Vamos continuar. Você se lembra de quando participou de uma banda? Foi lá que conheceu Suzana, aquela dos joanetes. Que pés horrorosos.
     Vitorino não disse nada. Um arroubo de imagens e sons perpassaram por ele, e a alma ficou armada e apontada para a cara do sossego.

     Era uma garagem. Era um grupo de seis. O sétimo havia saído, porque sete é um número de azar. Ele nem quis, mas saiu assim mesmo. O último da lista era sempre o mais especial. Eram as regras da banda, eram os deveres do lar. Desculpe o Tempo, pois o Tempo está corrido. E corrido, ele corre sem sentido. Esse trecho de uma das músicas da banda não poderia ser mais apropriado. Foi Suzana quem escreveu. Suzana, a dos joanetes. Mas ela os cobria muito bem cobertos e era só sorrisos da barriga pra cima, pois era só isso que os fãs viam naquela noite de autógrafos. Havia um Vitorino Malvino la Muz Maral todo estiloso, camisa pra dentro, sem nada no bolso, mas cheio de amor pra dar. Ah, papai! Ele e Suzana haviam se conhecido na banda. Ele tocava... Bem. O horário não permite. Mas era um bom espectador. Suzana era guitarrista. E poetiza, e baterista, e às vezes arriscava a pianista. O rapaz Vitorino aproximou-se com seu livro. Ele não lia. Porque não gostava, porque não queria. Mas Suzana ele queria. Suzana ele queria. Suzana ele bem que queria. Na sua vez, ele chegou à mesa e depositou delicadamente o livro na bancada. Um aviso: Vitorino nunca foi bom de cantada:
– Você tem uma capacidade incrível de aturar gente chata vomitando no seu ouvido. É um verdadeiro dom, e é raríssimo.
– É... ela deu um sorrisinho sem graça.
– Fique feliz, eu estou te elogiando.
Pausa.
– É sério! ele continuou Eu te invejo exclusivamente por isso.
Havia uma Suzana encantada com a cantada de Vitorino. E, acredite, os dois se casaram. Um ano e dois meses depois disso.

   Vitorino fez uma tatuagem. Suzana o acompanhou. Os dois marcaram-se na pele um do outro, para sempre, com “V-s2-S”. Eu sei, eu sei. Mas fazer o quê, né.
   Vitorino foi muito mais. A fita está começando a emperrar. O banco está começando a descascar, mas Vitorino foi muito mais. Trabalhou em um jornal sensacionalista. Depois foi promovido a âncora desse jornal. Foi demitido quatro semanas depois, ninguém soube por quê. Foi pugilista. Cem vezes campeão, em apenas dois anos. Foi mergulhador. Estava no bando de Lampião. Roubou um beijo de Maria Bonita na frente do cangaceiro, e este lhe deu um abraço em seguida. Esteve também ao lado da polícia que prendeu o bando. Lampião jamais lhe perdoou. Esteve em todos os aniversários de Jorge. Eram amados amigos de infância. Conheceu a rainha. Conheceu o papa. A este, estendeu uma cruz de ponta cabeça e recebeu de volta um beijo soprado no ar. Andou na corda bamba por cinco vezes, diariamente, entre dois penhascos nos Estados Unidos. Visitou um amigo das FARC. Visitou o Camboja. Conheceu um rapaz azteca. Casou-se três vezes com a mesma mulher, porque os dois se amavam de mais. Separou-se outras quatro, de outra mulher. Ela se chamava Simone, e tinha os maiores braços que você pode imaginar. Fez duzentas cirurgias, em todo o corpo. Em uma, ajudou o médico a guiar a câmera pelo estômago. Vitorino via tudo acontecer. Vitorino fazia tudo acontecer. Vitorino foi o que aconteceu.

    Mas o que foi lhe aconteceu? Mas o que foi que lhe aconteceu? Vitorino não sabe. Era um céu, era uma nuvem só. Um céu de uma nuvem só. A fita está emperrando, o banco está descascando, e o Tempo está passando. O Tempo já passou. O Tempo está passando.

   Havia um Vitorino uma vez. Havia um Vitorino duas vezes. Três, quatro, cem vezes. Cem vezes cem, de tantas vezes. E de tantas, Vitorino levou uma. Foi de uma só vez que aconteceu.
Havia um Vitorino, e então desapareceu. Havia um Vitorino. Agora, desavia um Vitorino.

  O ônibus chegou freando forte. O motorista corria, pois estava com pressa. O banco descascado, a fita emperrada, o tempo passado. Vitorino estava apagado. Armado e apontado para a cara do sossego. Os rapazes trouxeram a maca, puseram Vitorino deitado lá. Levaram Vitorino para dentro do ônibus. O vento passou e o vento levou do bolso de Vitorino um papel dobrado, muito bem educado.
    Havia um Vitorino antes. Agora, desavia um.


FIM

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Escrevi essa história para dar de presente a um amigo. É tudo o que tem pra dizer.