Azinho

Eu sinto uma tristeza.
Dessas que são devagarinho,
dessas que te adoecem um pouquinho.
Que te adoecem e que te deixam sem saber como viver.

É a tristeza azul-clarinho,
que me tocou aqui no ninho,
que me levou pelo cantinho,
que me fez lembrar você.

Mas a tristeza já tem nome,
e ele é pequenininho,
ele é todo arrumadinho,
é nome que já vou dizer.

O nome fica bem juntinho,
o nome veio de mansinho,
o nome dela é da sua cor,
o nome dela é azinho.


Havia um Vitorino


Uma história de Vitorino, redigida por Leonardo de Andrade, pelo Tempo e pelo próprio.
Com uns e outros auxílios.
E atrapalhos também.


- - - - -

Um ambiente e uma metáfora às vezes podem ser a mesma coisa.

     Lá se vai o meu ônibus.
    São... Uma e quatorze da manhã. É sábado. Hoje deve ser algum dia entre quatorze e dezesseis. Eu não tenho certeza. Eu não tenho certeza de muitas coisas, a propósito.
   Mas de uma, eu tenho. E essa é absoluta. Eu tentei avisar a ele. Desfilei uma coleção completa de argumentos sobre o quão é aparentemente inapropriado dar de presente uma história dessa. Oras. Juro que tentei. Mas desculpe, Thiago (ouvi ser esse o seu nome), mas não consegui ser suficientemente convincente. Para me desculpar formalmente, escrevi algumas linhas de dedicatória, pra enfiar entre as páginas quando ele não estivesse olhando. O papel deve esta aqui em algum lugar...
  Há uma hora atrás, Vitorino morreu. Não se sabe a causa, não se sabe ao certo o lugar. Não interessa, no fim das contas. Nada disso importa. O fato é que ele perdeu o ônibus. Não poderia ser diferente, naturalmente. Aqui, voa quem pode. Lá também. Mas é um ônibus bom, até. Sabe, desses com ar-condicionado e bancos estofados. Ainda custa dois e oitenta.
    O tempo até que está bom, hoje. Eu acho, particularmente. Do lado de lá, parece que vai chover, mas pra cá, o céu está limpo. Espero que o próximo não demore. Estou começando a ficar com fome...
   Se você pechinchar, até paga mais barato. Mas observe o banco. Aquele ali, pintado de amarelo. Vitorino sentou ali assim que percebeu que morreu. Francamente. Olha esse tipinho. Debochar da morte é heresia. Quer dizer... Vitorino morreu ontem, mas não se lembra de quê. Isso você já sabe. Eu estou tomando seu tempo, porque quando Vitorino começar...
   Ah! Está ouvindo? Aquele rapaz no carrinho passou tocando Roberto Carlos. Opa. Roberto Carlos. Quantos anos eu tenho? Digo: eu tive? Ai... Eu tive uma namorada, sabe. OLHA! HAHAHA! Eu tive uma namorada. Bicho... Há mulheres que se enroscam...
     Nós nos conhecemos num trem. Ai, ai... Opa. Está vendo aquilo ali? Então quer dizer que essas telas existem mesmo. A gente realmente pode repassar a vida toda. Talvez eu possa saber de que morri...
   Vitorino conheceu Silvana em um baile. Desses que as pessoas realmente dançam. Ele olhou para ela; ela olhou de volta. Um chegou perto do outro, as mãos se triscaram e se afastaram rapidamente. Envergonhados, foram chegando mais perto. O primeiro beijo só aconteceu nove meses depois.
    OPA! Duvido que isso seja verdade. Pois saiba que eu nem estava falando da Silvana, para o seu governo. Nem sei quem é essa daí... Eu me recordei foi de Edileuza. Ai... Olha, está começando a aparecer ali na tela. Preste atenção! HAHAHA! É engraçado como nos conhecemos.

   Era um trem, lotado, socado de gente. Balançava, balançava, e todos se empurravam. Sem querer (querendo). Havia um Vitorino Malvino da Luz Amaral de pé, todo engomado, cabelo partido de lado, a mala pendendo ao chão. Havia uma mulher morena, pele reluzente, magra no espelho, desmagra na real. De cara fechada, a mulher via o mundo correr pra trás, enquanto estava ali parada no trem. Olhou a mala ao seu lado, e depois o pé do rapaz Vitorino, que estava encostando no seu. Isso foi por cinco vezes. Na quinta, Vitorino indagou:
– A senhora acha seu pé bonito?
– Não. – rebateu Edileuza, só com o rosto, sem dizer palavra.
– E eu concordo. Então não deve ser por admiração que eu estou olhando para ele.
Pausa.
– Já lhe ocorreu que eu possa estar cuidando para não pisar no seu pé e causar, com isso, um inferno dentro desse trem?
“Dadas as palavras acima, redija um romance”, fez o Tempo, e Vitorino e Edileuza, obedientes da vida, redigiram. Com um desempenho invejável, diga-se. A virilidade de Vitorino permitiu-lhes quatorze filhos.

    Caramba, é verdade! Eu tive filhos com Edileuza! Sabe como é, né... Eu cheguei nela, falei, aí pá, plis, caixinha de fósforo... Espera. Quantos anos eu tenho? Quer dizer: eu tinha? Talvez essa televisão me ajude...
    Vitorino conheceu outras mulheres, além dessas duas. Sabe, ele já teve uma boa aparência. Agora tem essas coisas espalhadas pela cara...
       OPA! Que coisas?
     Nada, Vitorino. Sabe de quem acabei de lembrar? De Vanusa. Você lembra daqueles peitos, Vitorino? Vitorino, Vitorino. Se eu fosse você, estaria profundamente arrependido de ter morrido, e perdido aqueles peitos.
     Poxa, é verdade. Vanusa tinha os melhores peitos que uma pessoa é capaz de ter. Eles eram macios, e sedosos, e quentinhos, e... OLHA! Está aparecendo ali na tela! EPA, tira o olho, parceiro!

    Era um pátio externo. Vanusa, uma mulher que já foi musa, agora jazia no lixo. Catava papelão e precisava sobreviver. Comia numa feira que dava comida aos pobres na hora do almoço. Certa feita, havia um Vitorino Alvino da Muz Lamaral de pé, todo desengonçado na fila do almoço. Não era pobre. Não era rico. Bem, então por que não, né? Vanusa era uma dessas mulheres faca na bota. Não levava desaforo pra casa, nem para lugar nenhum. Quando os rapazes vieram roubar seu papelão, ela enfrentou cada um, mas era apenas uma, e ela caiu no chão. O rapaz Vitorino foi ajudá-la a se levantar. Disse-lhe que iriam juntos à delegacia, e completou:
– Suja como está, é provável que eles te prendam assim que puser os olhos no edifício. Seria considerado atentado ao pudor. Vá tomar um banho.

      E depois dessas palavras insanas, Vitorino conheceu os peitos de Vanusa, antes mesmo de irem à delegacia. Foi ele quem a ajudou no banho. Não é preciso dizer por quê eles eram quentinhos.
     Eu ficaria agradecido se não ultrapassasse o limite do meu respeito. Ainda mais agora que eu estou morto. Ainda mais agora? Será que eu era velho? Talvez eu possa ver na tela, assim que eu achar o controle...
      Não sei quem disse que morto merece respeito. Ok, desculpe, Vitorino. Vamos continuar. Você se lembra de quando participou de uma banda? Foi lá que conheceu Suzana, aquela dos joanetes. Que pés horrorosos.
     Vitorino não disse nada. Um arroubo de imagens e sons perpassaram por ele, e a alma ficou armada e apontada para a cara do sossego.

     Era uma garagem. Era um grupo de seis. O sétimo havia saído, porque sete é um número de azar. Ele nem quis, mas saiu assim mesmo. O último da lista era sempre o mais especial. Eram as regras da banda, eram os deveres do lar. Desculpe o Tempo, pois o Tempo está corrido. E corrido, ele corre sem sentido. Esse trecho de uma das músicas da banda não poderia ser mais apropriado. Foi Suzana quem escreveu. Suzana, a dos joanetes. Mas ela os cobria muito bem cobertos e era só sorrisos da barriga pra cima, pois era só isso que os fãs viam naquela noite de autógrafos. Havia um Vitorino Malvino la Muz Maral todo estiloso, camisa pra dentro, sem nada no bolso, mas cheio de amor pra dar. Ah, papai! Ele e Suzana haviam se conhecido na banda. Ele tocava... Bem. O horário não permite. Mas era um bom espectador. Suzana era guitarrista. E poetiza, e baterista, e às vezes arriscava a pianista. O rapaz Vitorino aproximou-se com seu livro. Ele não lia. Porque não gostava, porque não queria. Mas Suzana ele queria. Suzana ele queria. Suzana ele bem que queria. Na sua vez, ele chegou à mesa e depositou delicadamente o livro na bancada. Um aviso: Vitorino nunca foi bom de cantada:
– Você tem uma capacidade incrível de aturar gente chata vomitando no seu ouvido. É um verdadeiro dom, e é raríssimo.
– É... ela deu um sorrisinho sem graça.
– Fique feliz, eu estou te elogiando.
Pausa.
– É sério! ele continuou Eu te invejo exclusivamente por isso.
Havia uma Suzana encantada com a cantada de Vitorino. E, acredite, os dois se casaram. Um ano e dois meses depois disso.

   Vitorino fez uma tatuagem. Suzana o acompanhou. Os dois marcaram-se na pele um do outro, para sempre, com “V-s2-S”. Eu sei, eu sei. Mas fazer o quê, né.
   Vitorino foi muito mais. A fita está começando a emperrar. O banco está começando a descascar, mas Vitorino foi muito mais. Trabalhou em um jornal sensacionalista. Depois foi promovido a âncora desse jornal. Foi demitido quatro semanas depois, ninguém soube por quê. Foi pugilista. Cem vezes campeão, em apenas dois anos. Foi mergulhador. Estava no bando de Lampião. Roubou um beijo de Maria Bonita na frente do cangaceiro, e este lhe deu um abraço em seguida. Esteve também ao lado da polícia que prendeu o bando. Lampião jamais lhe perdoou. Esteve em todos os aniversários de Jorge. Eram amados amigos de infância. Conheceu a rainha. Conheceu o papa. A este, estendeu uma cruz de ponta cabeça e recebeu de volta um beijo soprado no ar. Andou na corda bamba por cinco vezes, diariamente, entre dois penhascos nos Estados Unidos. Visitou um amigo das FARC. Visitou o Camboja. Conheceu um rapaz azteca. Casou-se três vezes com a mesma mulher, porque os dois se amavam de mais. Separou-se outras quatro, de outra mulher. Ela se chamava Simone, e tinha os maiores braços que você pode imaginar. Fez duzentas cirurgias, em todo o corpo. Em uma, ajudou o médico a guiar a câmera pelo estômago. Vitorino via tudo acontecer. Vitorino fazia tudo acontecer. Vitorino foi o que aconteceu.

    Mas o que foi lhe aconteceu? Mas o que foi que lhe aconteceu? Vitorino não sabe. Era um céu, era uma nuvem só. Um céu de uma nuvem só. A fita está emperrando, o banco está descascando, e o Tempo está passando. O Tempo já passou. O Tempo está passando.

   Havia um Vitorino uma vez. Havia um Vitorino duas vezes. Três, quatro, cem vezes. Cem vezes cem, de tantas vezes. E de tantas, Vitorino levou uma. Foi de uma só vez que aconteceu.
Havia um Vitorino, e então desapareceu. Havia um Vitorino. Agora, desavia um Vitorino.

  O ônibus chegou freando forte. O motorista corria, pois estava com pressa. O banco descascado, a fita emperrada, o tempo passado. Vitorino estava apagado. Armado e apontado para a cara do sossego. Os rapazes trouxeram a maca, puseram Vitorino deitado lá. Levaram Vitorino para dentro do ônibus. O vento passou e o vento levou do bolso de Vitorino um papel dobrado, muito bem educado.
    Havia um Vitorino antes. Agora, desavia um.


FIM

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Escrevi essa história para dar de presente a um amigo. É tudo o que tem pra dizer.

O poema da casa vazia

Era uma vez uma casa
que de dia sorria.
Gargalhava e brincava, e
era só alegria.

E a tarde também
a casa Ninguém
vivia a sintonia.

Um sorria pro outro,
e era só alegria.
Surgia uma graça,
vinha então a pirraça,
desabrochava uma valsa,
e era só alegria.

Mas à noite,
a casa,
tão vazia e sem graça,
era vaiada na praça;
o inferno parecia.

Vinha uma nuvem cinzenta,
que de toda tormenta,
nem ao menos aguenta
da casa
a
sintonia.

Essa nuvem trazia,
desde os tempos de cria,
na testa, uma marca:
de amargura sofria.

Amargurada vivia,
e ia cega, vazia,
escurecer a casa,
escurecer meu dia.

E era sempre assim,
sempre assim,
todo dia.
Vivia bem a casa,
mas era só de dia.

Alvas Casas - O róseo


    Desde as seis da manhã, um helicóptero zanzava ali por perto do prédio onde Alice morava; indo e vindo, por vezes estando longe de mais pra ser ouvido, mas voltando depressa ao campo de audição dela e certamente de todo o restante do quarteirão. Ela tentou, o máximo que pôde, lutar para ignorá-lo. Mas tal qual uma mosca nojenta que ronda sua orelha numa noite quente sem ventilador, o helicóptero foi mais forte; e Alice foi atirada para fora da cama. Foi-se arrastando, quase sem forças, até o banheiro. E encarou-se no espelho. Não aguentava ver um, por um batalhão de motivos. Por um segundo, pairou uma dúvida estranhamente plácida. Mas uma mosca não teria fôlego para fazer o que ela fez.
    Não bastaria pentear os cabelos, para alguém que fora tanto, um dia. E Alice se viu empacada, com a mão a meio caminho do pente, sem saber o que fazer. Algo mais forte reagiu, e ela saiu do banheiro antes que fosse tomada pela culpa. Na sala, viu-se retratada pela bagunça descomunal por todos os lados. Estava em um processo de entrega, e Alice jogou-se em cima de si mesma, no sofá. Caiu meio desamparada, meio largada de lado, meio ao relento na própria casa. A Avenida Fagundes Varela nunca pareceu tão movimentada; a vida nunca pareceu tão duvidosa. Uma dor rósea afunilou os sentimentos de Alice, um sorriso amarelo escancarou-a para um mundo.
     Ali no teto da sala, as coisas foram aparecendo. Às vezes lutava para afastá-las, entocá-las em algum canto. Por muitas vezes, vestidos, sorrisos, festas e namoricos cumpriam bem o seu papel, e Alice se via acolhida no meio de tudo aquilo, afastada e perdida de si. Até que nada mais era capaz de aparar a cor rosa que vinha tomando sua vida; e então ela se isolou. Porque precisava se isolar. E um apartamento às escuras é capaz de abafar uma algazarra como poucas outras coisas.
    Alice magoou muita gente. E magoava a si mesma, magoando os outros. Doía ver o próprio rosto no espelho; era quando via a extensão do mal que havia feito. Cada rosto daqueles assumia a sua fisionomia. E então ela e os fantasmas eram um só. E o arrependimento crescia a cada encontro desses.
     O céu do lado de fora foi-se aquietando devagar, para reativar-se aos poucos, preparando-se para a vida noturna da cidade. Alice precisava respirar. Doeu para levantar, doeu para atravessar a sala, doeu ligar a luz. A própria dor doeu. Ao lado da porta estava a sua camisa com dois números a mais, e ela vestiu. No balcão do bar estava uma garrafa de vodka, e ela pegou. Saiu sem trancar a porta.
     Lá fora estava claro de mais. Por um instante, Alice brilhou junto com as luzes da rua e das lojas, como antes. Mas apagou-se; foi atingida por um mundo mais real do que podia aguentar. Tudo acontecia alheio a ela; tudo existia independente dela. Alice foi andando, e tomou o primeiro gole. Ninguém se importou, e ela bebeu o segundo e depois o terceiro. Como se acertado, o semáforo fechou quando ela foi atravessar a rua, já meio perdida entre o sexto ou sétimo. A praça veio até ela como se a esperasse. O rosto sorridente de Drummond a saudou, meio caridoso, meio irônico, e Alice sentou-se ao seu lado. Naquela áurea roda de brasileiros, Alice encarou o chão. Viu todos os rostos de novo. E cada uma daquelas estátuas assumiu a expressão de desapontamento que sempre temeu ver. E o rosa explodiu de dentro dela.
     A Avenida Fagundes Varela nunca foi tão movimentada; a vida nunca foi tão duvidosa. O caminho de pedra à esquerda levava a uma ponte, de onde se tinha uma visão deslumbrante da parte baixa da cidade. À noite, então, poucas coisas brilhavam tanto quanto aquelas ruas largas, retas e compridas. Alice não soube como resistir. Alice precisava respirar. Um rapaz cutucou a namorada e deu um risinho quando viram aquela doida passar as pernas para fora da grade. A garrafa foi primeiro, levando o primeiro grito. 
      Em silêncio, Alice se entregou aos holofotes. Rosa foi o que ficou.

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Texto baseado na letra/melodia de Hey little rich girl, da banda The Specials, regravada por Amy Winehouse.



Alvas Casas - Aline cor de âmbar


"Cor de âmbar me faz chorar.
Choro e canto,
toco a quarta corda,
e meu violão chora comigo.

Toco a quarta corda
e as demais cantam junto.
Mas é a cor de âmbar
que me faz chorar.
É ela, cujo mel eu sinto,
cujo brilho vejo eu,
que me faz sentir o que
eu nem sei o que sentir."


     Sem demonstrar expectativas, Aline entrou no táxi que estava esperando por ela no portão de casa. Um cheiro doce, que não era perfume, fomentou uma lembrança incômoda quando ela o sentiu, um instante depois de fechar a porta. O ar ali dentro estava frio, quase tanto quanto lá fora - onde a chuva acabara de começar a cair, e ela pediu ao motorista que aumentasse um pouco o grau do ar condicionado. Foi quando ele virou que ela o reconheceu; o rapaz baixinho e franzino, que levava um cavanhaque em um contorno total da boca, tinha sido seu vizinho durante a infância. Ele pareceu reconhecê-la também, porque durante um instante fugaz seus olhos se abriram mais que o normal. Passada a surpresa, sua expressão voltou ao cansaço aparentemente habitual.
     - Avenida Gonçalves Dias, 520.
    Foram os olhos verdes primeiro. Quando o táxi virou a primeira esquina, tudo já estava tomado pelas sombras da luz dos postes na rua; e era tudo laranja também. Um laranja adocicado. E essa percepção reacendeu o cheiro ali dentro. Em seguida, os olhos lampejaram de novo; Aline decidiu se entregar.
     Estava na porta do bar, anotando um poema que acabara de lhe ocorrer. Não fazia ideia do que aquelas linhas tortas significavam, mas era assim que as coisas funcionavam. No final, acabou escrevendo mais do que a ideia original; os três versos que se formaram diante dela renderam bem umas sete estrofes. Duas ou três pessoas entraram antes dela enquanto Aline limpava, com a mão desocupada, a alça da bolsa onde a caneta tinha passado sem querer. A alça ia escorregando; Aline se inclinou de lado, numa posição inovadora, e foi-se consertando, até a caneta e o caderno caírem da sua mão com os dedos entrelaçados tentando segurar alguma das duas coisas de verdade. Apanhou tudo, um tanto aborrecida e igualmente divertida, e passou pela porta. 
    O ambiente ali dentro era excepcionalmente engraçado. Uma graça divertida e encantadora; mas algo incomodava. Alguma sutileza desafinava em algum canto do lugar. Aline procurou uma mesa nem do meio, nem do canto, e sentou-se. Um garçon chegou perto, mas ela sinalizou que não, e ele se afastou para atender outra pessoa. Alguns rabiscos e tamboriladas depois, Aline estava de saco cheio de esperar e largou a cabeça na mesa. Ao erguer os olhos na direção da porta, um rapaz gesticulando exageradamente chamou sua atenção. Ele estava com algumas pessoas a uma mesa redonda no outro canto, e claramente narrava um caso. Talvez um pouco aumentado de mais. Ele virou para o lado de cá, e começou a imitar um anjo, ou algo (talvez de longe) parecido, e ela pôde ver melhor seu rosto. Que rapaz bonito, ele era. Foram os olhos verdes primeiro. Uma barba por fazer terminava o que os olhos haviam começado, e nada mais era necessário.
    À direita, a porta do bar girou pra dentro e Elias, amigo de Aline, passou por ela, praticamente saltitando. No meio do caminho, porém, ele virou na direção da mesa daquele rapaz e quando este o viu, os dois se cumprimentaram com um entusiasmo contagiante. Pareciam ser amigos que há tempos não se viam. Ficaram ali em pé, conversando por algum tempo, até que Elias girou a cabeça na direção de Aline; e ali naquela expressão descontraída ela enxergou algo a mais do que deveria estar. E nem foi uma surpresa quando o rapaz de olhos verdes anunciou algo ao pessoal da sua mesa e acompanhou Elias até a mesa de Aline. Aquele foi o primeiro contato dos dois. Foi engraçado e leve, agradável e empolgante, mas uma vírgula sutil gotejou desamparada em algum canto do lugar. Os dois se sentaram, e os três conversaram por horas a fio. Alguns que estavam lá naquela mesa foram embora; uns vieram se despedir do rapaz, outros, não. Mais umas horas se foram, até que o rapaz teve que ir. Ele se despediu e se foi, os olhos ficaram. Elias deu um tchau bastante entusiasmado, e Aline estava apaixonada. Foi tudo assim bem rápido. Se não foi, pareceu.
    Em casa, Aline sentou-se no sofá e olhou para cima. Não era uma loucura? Deu uma breve gargalhada e começou a falar algumas coisas sozinha. Até que saiu uma canção daí. Aline repetiu a primeira palavra do refrão uma centena (ou duas, ou mais) de vezes, todas com a mesma intensidade, e em todas sentia exatamente a mesma coisa, ou talvez algo ainda maior. E assim fez o restante da semana, até chegar o final do mês, e então do segundo, quinto, décimo. 
   Um ano depois, Aline cantarolava a música que compusera no último dia frio igual àquele em que estava agora, dentro do táxi. O taxímetro seguia marcando bandeira um; seu antigo vizinho trocou a marcha e virou a última curva antes do teatro. No número 520 da Avenida Gonçalves Dias ficava um teatro encantador, chamado Adélia Prado, que tinha uma escadaria surpreendentemente simples na entrada. Faltava pouco menos de vinte minutos pra começar a montagem de final de ano do curso de teatro do sobrinho de Elias. Aline pagou a corrida e viu pela última vez, nos próximos cinco anos, seu vizinho de antigamente.
   Foram os olhos verdes primeiro. Antes de entrar, Aline esbarrou numa pilastra enquanto abaixava para pegar a caneta que deixou cair. Quando virou, de costas para a entrada do teatro, os olhos verdes daquele rapaz do bar perpassaram por ela, do outro lado da rua. Estava sozinho, mas o ar notável e contagiante de paixão praticamente materializava alguém ao seu lado. Nenhum sinal de reconhecimento; nem um mais remoto. Aline seguia sua paixão; por ele. Repôs a caneta e alguma outra coisa desafinada no bolso. Avistou Elias, que vinha saltitante, feliz, extremamente radiante. Aline não pôde fazer muito, se não retribuir a sintonia do amigo. Os dois entraram no teatro. Uma cor de âmbar gotejou desamparada em algum canto ali daquele lugar; Aline estava junto.

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Texto baseado na letra/melodia de Cupid, de Sam Cooke (que, para minha surpresa, nasceu no mesmo dia que eu, mas em 1931), regravada por Amy Winehouse.


Catarina prefere o mundo


Na busca por concentração, Catarina abriu a bolsa a procura de um remédio que pudesse lhe acalmar. Tateou às cegas, mas não encontrou nada se não o mundo de tralhas que carregava por todos os lados, há um bom tempo. Olhou para cima, em busca de alguma solução. Pois foi que achou um martelo, e com ele quis se resolver. Olha, resolução, olha, resolução. Catarina ajoelhou-se por um tempo, sorriu amarelamente e se pôs a gritar. Jogou pra fora toda aquela cor que lhe estava presa à garganta, agarrada à sua pele, arranhando-lhe tudo por dentro. A cor saiu rasgando tudo, rasgou o céu que achou pela frente, rasgou o véu que cobria as coisas. Catarina olhou para um instante, e Catarina descobriu o quanto era cega. Uma gargalhada escapou de dentro dela, de um dentro tão profundo que Catarina nunca havia tomado consciência. O fundo tornou-se inda mais fundo, mas evoluiu ao raso. E Catarina gritou novamente, sem querer gritar. Seu querer submeteu-se à desordem e ao não comando, e Catarina dessa vez sorriu. Tomou um susto quando o céu caiu sobre ela, e a chuva ameaçou derreter-lhe toda. Tremendo, Catarina levantou-se sobre as pernas, mas elas fraquejaram e se puseram a cair. Antes que caisse, no entanto, com um supetão sem precedentes, o céu puxou-lhe de volta, e Catarina foi erguida às nuvens, alheia a qualquer realidade. Mas o céu não quis carregar com ele tal responsabilidade, e Catarina foi arremessada de volta ao chão, onde bateu com força no nada; e o nada se dissolveu, e foi aí que Catarina veio ao chão. Não contente, Catarina ergueu os olhos para os lados e viu alguma coisa. Não uma só: duas coisas, lado a lado, de mãos dadas ali em frente. O mundo fez silêncio, mas o silêncio fez um pequeno esforço e conseguiu gritar. Catarina ouviu o grito, e essa distração bastou para que as duas coisas sumissem. O sumiço fez-se sorriso, e esse sorriso grudou-se ao rosto de Catarina. O mundo girou, e Catarina recebeu o impacto daquilo com maus grados, preferindo ficar alheia ao movimento. Aquela percepção acalentou o mundo de Catarina, e ela percebeu que possuia um mundo. E Catarina percebeu que poderia preferir. E preferindo, agora, Catarina retornou. Agora estava apta a ficar alheia ao mundo. Poderia preferir ficar alheia às realidades. Catarina desgrudou o sorriso, assumiu qualquer postura e recitou aos ventos:

Me deixo estar,
me deixo estar estando,
estando livre para preferir,
e preferir, vou preferindo,
sem chegar e sem sair.

Se eu não saio, não chego;
chegar eu não preciso.
Mas se quiser ficar aqui,
andando, sempre irei saber.

Se o mundo vem até mim,
é porque ele precisa.
Se não precisa,
a mim ele não vem.

Vou-me quando quero,
e quero quando vou-me.
Seu real é a loucura do meu mundo.
Não tenho os pés virados para trás,
mas ando confundindo.
Meu real é a loucura do seu mundo,
que se perde ao sorrir do sol
no mundo meu.

Luardil I

Sentei na janela.
Ela apareceu.
Vi que o dia sorriu
e a lua esmoreceu.

Sorri,
sorristes,
sorri, abriu.
A lua apareceu,
o sol partiu.

À noite,
ao dia,
se foi, sumiu.
Não vem porque desceu,
não vai porque feriu.

Setenta e cinco,
seu velho senil.
A lua esmoreceu
quando o dia se abriu.

A lua não diz
o que o sol não permitiu.
Agora vai fazer
o que nunca antes se viu.

Depois do amanhecer,
veja a ponte que caiu.
O sol já vai saber
que a lua,
pra sempre,
dormiu.