Um diálogo nada 'bem'

- Ei, você está bem?
- O que é estar bem?
 Silêncio.
- Você sabe... Bem, bem.
- Não sei, não. Se você disser, talvez eu esteja.
- Como? Depende do que eu disser?
- Claro que sim. Como vou saber se estou bem de acordo com o que você entende?
- Mas assim eu vou estar limitando o seu bem estar.
- E você sabe se eu tenho um bem estar?
- Não. Por isso perguntei se você está bem.
- Bem estar é o mesmo que estar bem?
 Um longo silêncio indeciso.
- Pode parar com as perguntas?
- Claro...
- Então...
 Silêncio.
- Eu estou bem, se você ainda quer saber. Bem do meu jeito.
- Ah, sim.
- Mas talvez eu esteja mal, não é?
- Eu pedi que parasse com as perguntas.
- Verdade. Desculpe.
- Tudo bem.
- Bem. É.
- Eu não. Você me deixou meio mal.

A Praia


A praia das nuvens estava iluminada. Havia uma grande expectativa no céu. As estrelas usavam seus melhores vestidos, e o restante dos astros aproximava-se vagarosamente. Um vagalume piscou três vezes enquanto a cigarra cantou seu mais belo hino de boas vindas. A tempestade da noite passada havia presenteado as formigas com asas, dando-lhes a oportunidade de assistir a tudo bem de perto. O vento assumiu sua forma gélida, indo e vindo devagar, deslizando sua brisa para todos os lados, acalmando e aclamando serenamente toda aquela situação. O sol pedira o espelho do lago emprestado, e posicionando-se contra ele, irradiou todo seu brilho naquela direção. Usava agora sobre a cabeça uma coroa linda e brilhosa, num gesto de reverência. As flores lutavam para permanecer abertas, incapazes de se perdoar caso perdessem alguma coisa. Morcegos e pássaros voavam lado a lado, piando e emitindo sonares ao mesmo tempo, sem se importar com nada. As mariposas e as borboletas também estavam unidas, indiferentes às condições. Os peixes lá de baixo subiram à superfície e permaneceram ali na expectativa. Um sentimento de profunda magia enchia o coração de cada um daquelas criaturas expectadoras. Um brilho pingou pelo céu escuro. Uma lágrima anunciadora caiu dali, logo se transformando numa avassaladora onde de esperança e felicidade. O brilho foi aumentando, a expectativa acompanhando seu ritmo. O esplendor encheu os pulmões de tudo. As nuvens se ajustaram e criaram um caminho belíssimo que uniu o céu e a terra. A rainha despontou na esquina mais próxima. Os olhos dos que assistiam encheram-se de lágrima. Ela estava chegando, estava chegando. Uma voz doce e suave acariciou os tímpanos. Todos se dobraram numa profunda reverência. A Rainha Lua sorria, acolhendo o mundo com sua beleza. Os habitantes da Terra pararam o que estavam fazendo. Não havia mais uma centelha de guerra, nem nenhuma outra coisa ruim. Todos pararam e a olharam. E choraram. A Lua desceu os degraus de nuvem e quando seu pé tocou o chão, tudo foi só felicidade. Todos souberam, sentiram. Ela chegara.


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Para ler assim. 
De vez. 
Bem, me faz  sentir vontade de chorar.

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A gente agente


A gente não é agente
A gente não é a gente.
Secreto.
Só e consigo.
De gente boa e de gente ruim.
E agente não é a gente
A gente é só a gente
E não a gente.


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A cama, ela e Watowl


Abri a janela devagar, esperando encontrar sabe-se lá o que; nem havia tanto perigo assim, mas seguro morreu de velho. No entanto, ao encostar por fim a aba direita à parede azul do meu quarto, algo pulou na minha direção, e precisei me controlar para não gritar. Ela estava dormindo, ainda. Olhei para trás, para as almofadas amontoadas no tapete no lado oposto ao que eu estava, e aqueles sentimentos reacenderam no instante de um único segundo fugaz. E se estenderam, como eu sabia que se estenderiam. Era assim todas as vezes que eu a olhava. Eu adorava isso. Voltando os olhos para a janela, lembrei-me (acredite, eu havia esquecido) de que algo havia pulado em mim. Levantei-me depressa, sacudindo a camisa (um tanto larga demais, como prefiro) e a almofada na minha cama se mexeu sem nenhum motivo aparente. Devagar, aproximei-me e larguei a mão por baixo e a suspendi de vez. Encolhida num canto, com as asas tremendo e os olhos arregalados, encarava-me uma coruja meio branca, meio caramelo, meio marrom. Com uma cautela maior do que eu estava sentindo no momento, avancei para ela, estendendo a mão. A coruja não recuou; coube na minha palma com um encaixe perfeito. Aproximei-a do rosto e nos encaramos por vários instantes, até que ela piou muito alto e ficou se balançando de um jeito estranho, alegre. Depois, com um segundo pio, se jogou contra o meu pescoço e esfregou várias vezes as penas da cabeça em mim. Um tanto assustado, ainda, cocei sua cabeça de leve e ela beliscou meu dedo. Era uma coruja estranha e sociável demais, eu sei. Dei-lhe um nome que estava guardado no meu bolso. A junção de duas coisas que eu gostava muito. Watowlmelon; Watowl, a chamei.


A Senhora, o Ódio e o Menino

    (Ou como você quiser arrumar)

- Mas ele me odeia...
- E quem um Dominn não odeia? - disse a senhora.
- A senhora.
- Não é verdade - foi o que ela disse, mas a risadinha desmentiu todo seu esforço - Dominn's são criaturas anti-sociais ao extremo. E quando digo "extremo", estou falando "pra valer". Já percebeu o grunhido que eles dão quando o vento passa pelas orelhas feiosas deles?
- Já, sim. E eles fazem aquela cara assustadora quando o sol brilha na direção deles.
- Exatamente.
- Então por que eles não te odeiam?
- Eles me odeiam, sim.
- A senhora está mentindo.
- Desculpe?
- A senhora está dizendo isso só para me consolar. Não pense que eu não vi aquela vez que aquele Dominn disse todas aquelas coisas bonitas para a senhora. Aquilo me pareceu muito amável da parte deles.
- Você está se referindo àquela ocasião à beira do lago Norte?
- Sim.
- Aquilo foi uma encenação.
O menino piscou duas vezes.
- Uma encenação?
- Uma encenação.
- Por quê?
- Por quê o quê?
- Não tente me confundir!
- Tudo bem, desculpe.
- Diga.
- Vou dizer. Aquele Dominn estava tentando saber como é não odiar alguém.
O menino pensou por um instante.
- Mas se era uma encenação, não tem como ele saber realmente como é não odiar alguém.
- Foi o que eu disse a ele, mas Dominn's não são bons em ouvir conselhos.
- Entendo.
- Satisfeito?
- Claro que não.
- Posso fazer uma pergunta?
- Pode.
- Como você sabe dessa ocasião à beira do lago Norte?
- Eu estava passando, oras.
- Você está mentindo.
- Estou?
- Está, sim. A estrada do seu caminho fica a Oeste, não a Norte. Você andou fazendo algo fora do permitido?
- A senhora disse que ia fazer uma pergunta, não duas.
- Ah, é.
- Mas acho melhor deixar claro que eu só estive na estrada Norte para ir até a estrada Oeste. A senhora sabe que elas tem uma conexão debaixo daquele monte Devaniano que corta todo o território.
- É, sei disso.
- Então a senhora anda ou andou fazendo algo fora do permitido?
- Isso significa que você estava fazendo algo fora do permitido?
- Não se responde a uma pergunta usando outra.
- Verdade.
- É.
- Sabe, menino?
- O que?
- Você é bom nisso.
- A senhora também.
- Obrigada.
- Não por isso. Mas sabe de uma coisa?
- Somente se você disser. Passei toda a minha vida desinteressada na arte Limesnt* e agora, quando isso se tornou realmente necessário, sou tão boa quanto um pedaço de pão. Aquela velha falta de planejamento.
- Entendo. Mas queria dizer que ainda acho que os Dominn's não odeiam a senhora.
- Quanto a isso, querido, só me resta lamentar.

- - -

*Limesnt - Expressão utilizada para designar a leitura de mentes.


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