Algo que cabe numa aula de inglês

Eu passo muito tempo sem cronometrar nada,
e eu tô começando a ficar desesperado com isso.
Talvez seja por causa dessa aula, né.
O caso é que eu tô muito inquieto.
Eu tô com vontade de falar sozinho
e tô com raiva de ter que escrever.
A propósito, eu estou com raiva agora.


"Acho que é porque eu não consigo acompanhar
o seu cérebro" - Minha mão.
- MAS VOCÊ É MUITO LERDA, PORRA! - disse o cérebro.
- PARE. DE. GRITAR. CO. MI. GO!! - respondeu a mão direita.
    Enquanto isso, Mão Esquerda apoiava o queixo, que pinicava de leve.
    Mão e Cérebro continuavam brigando.
- Porra, vei, eu tô aqui em polvorosa, e você aí sendo limitada. - disse o cérebro.
- CULPE A FÍSICA, SEU INFELIZ! NÃO POSSO FAZER NADA! NÃO. TENHO. CUL. PA. DROGA!
- Eu acho melhor você falar baixo comigo. Posso demitir você quando quiser.
- Você não teria coragem - respondeu, triunfante, Mão Direita. - Além do mais, tenho boa parte das ações da Memória, então fique na sua. Mas nós trabalhamos por um Bem Maior, então cale essa boca.
    Cérebro ficou uns minutos em silêncio. Quer dizer, quase silêncio. Cérebro não cala a boca nunca; mesmo enquanto está falando com alguém, está dando ordens a, geralmente, centenas de outras pessoas, através de um sistema de comunicação extremamente eficiente.
    Na verdade, ele é um workaholic, insuportável, mimado, estressado, irritadiço e brilhante administrador. Cérebro também é rei, mas em outro mundo. Dos funcionários desse prédio, ele e os irmãos gêmeos siameses chefes de segurança Olho Esquerdo e Olho Direito, são os únicos que coexistem em mais de um mundo.
    A briga entre Cérebro e Mão Direita passou; Mão se acalmou, mas Cérebro não se acalma assim tão fácil. Agora, estava brigando com a Perna Direita. Talvez ele não goste muito desse pavilhão do prédio.
    A discussão agora era com o Pescoço e Costas. Essa dupla geralmente dá muito trabalho ao chefe. Muito, mesmo. Talvez seja melhor, a julgar pelo nível a que chegou a briga com a mão, não enveredar por essa relação.
    Enquanto isso, Mão Esquerda, quase sempre inútil, dava uns passeios pela cabeça, que agora estava apoiada nela.
    Pela primeira vez nos últimos quarenta e cinco minutos, Cérebro baixou um pouco a crista e se acalmou.

De quem não sei a história

No galho de uma árvore,
atrás de uma pedra,
dentro de uma caverna,
no fundo do mar,
na sombra da lua,
em cima da folha,
ao lado do vento,
queimando com o fogo.

Ali está ele,
e também pra lá,
e atrás de você,
e à sua frente.

Mas você não vê.
Seus olhos não sentem.
Mas você cheira.
Sua alma percebe.
E você chora, sem querer chorar,
seu corpo treme, bravo guerreiro.
Suas pernas enfraquecem,
sua força se vai,
e você não sabe o que fazer.

Se aproxima devagar,
rastejando como uma serpente,
esquivo, mesquinho,
cruel, terrível
como a serpente.

Se enrola em você,
e te pressiona,
te diminui,
te apavora,
te entristece.

Sua presença é assustadora,
e ele não precisa de corpo.
Mas pode ser alto como uma montanha,
ou diminuto como um anão.

Mas ele vem.
Ele vem sempre que pode,
porque é livre pra ir onde quiser,
para ser o que quiser.

É tudo isso.
Assustador e terrível,
apavorante e caçador.

Mas há um porém.

Se ele vem e vê,
vê com todo o corpo,
aquele do segundo cume,
aquele das copas vermelhas,
estremece, entorpece,
enfraquece, enlouquece.

Tem medo, mas enfrenta.
Então observe.
Observe a si mesmo.
Olhando para si
você vê,
vê com todo o corpo,
quando ele chegar.

Fé no café

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Ca fé eu vou,
e café eu vou tomar.
E se não,
dou-te uma surra de cinto,
pois sabes bem que eu não minto.
Um dia ainda vou me esbaldar!

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A narrativa de Vera Vieira

Vera Vieira 
era uma mulher sem eira nem beira
que um dia foi numa feira
 pra vida tentar melhorar.
Chegou lá e viu alguém 
que também não via um vintém
há mais de dez anos brotar;
então ele disse:
"sai daqui, ô doideira, 
pois aqui nessa feira 
pra ti que não há lugar!".

E então Vera Vieira 
era uma mulher sem eira nem beira
que um dia foi ao campo pra vida tentar melhorar.
Chegou lá e viu, num canto,
encolhido dentro de um manto,
sob a sombra de um 'por enquanto',
um rapaz desabando a chorar.
Aproximou-se, espiando,
recuou, no entanto,
pois foi que ele achou de gritar:
 "sai daqui, ô desgraça, 
que aqui minha vida é de graça, 
já sujei foi meu nome na praça, 
e a ti que não vou ajudar!".

E então Vera Vieira, 
uma mulher sem eira nem beira, 
cuidou de vagar pelo mundo, tentando uma vida arrumar.
Amarrou fita no braço, 
arrumou um rapaz do cangaço, 
pegou muito boi pelo laço,
e um concluir dominou seu pensar:

"Passei pela feira,
levei foi uma boa rasteira,
depois fui ao campo,
pra vida tentar melhorar.
Lá um rapaz, no entanto,
ao invés de secar o meu pranto,
tratou de negar-me um encanto,
e mandou, como uma vaca, ir pastar.
Passei fome,
passei frio,
passei dias e dias sob um sol cruel e ardil.
Mas uma vez ao relento,
com o céu de testemunho atento,
lamentei por ter tanto talento
pra minha vida poder arruinar.
Vou-me daqui, correndo,
pois é noite e ninguém tá vendo,
assim não posso atrapalhar."

Vera Vieira,
a mulher sem eira nem beira,
com uma lágrima de bebedeira,
morreu na última terça-feira,
sob a égide lunar.

Consequências da reflexão

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Um dia vi flores no lixo
e fiquei sem entender
como tanta praga no mundo
vive dizendo sofrer.

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