Alvas Casas - Aline cor de âmbar


"Cor de âmbar me faz chorar.
Choro e canto,
toco a quarta corda,
e meu violão chora comigo.

Toco a quarta corda
e as demais cantam junto.
Mas é a cor de âmbar
que me faz chorar.
É ela, cujo mel eu sinto,
cujo brilho vejo eu,
que me faz sentir o que
eu nem sei o que sentir."


     Sem demonstrar expectativas, Aline entrou no táxi que estava esperando por ela no portão de casa. Um cheiro doce, que não era perfume, fomentou uma lembrança incômoda quando ela o sentiu, um instante depois de fechar a porta. O ar ali dentro estava frio, quase tanto quanto lá fora - onde a chuva acabara de começar a cair, e ela pediu ao motorista que aumentasse um pouco o grau do ar condicionado. Foi quando ele virou que ela o reconheceu; o rapaz baixinho e franzino, que levava um cavanhaque em um contorno total da boca, tinha sido seu vizinho durante a infância. Ele pareceu reconhecê-la também, porque durante um instante fugaz seus olhos se abriram mais que o normal. Passada a surpresa, sua expressão voltou ao cansaço aparentemente habitual.
     - Avenida Gonçalves Dias, 520.
    Foram os olhos verdes primeiro. Quando o táxi virou a primeira esquina, tudo já estava tomado pelas sombras da luz dos postes na rua; e era tudo laranja também. Um laranja adocicado. E essa percepção reacendeu o cheiro ali dentro. Em seguida, os olhos lampejaram de novo; Aline decidiu se entregar.
     Estava na porta do bar, anotando um poema que acabara de lhe ocorrer. Não fazia ideia do que aquelas linhas tortas significavam, mas era assim que as coisas funcionavam. No final, acabou escrevendo mais do que a ideia original; os três versos que se formaram diante dela renderam bem umas sete estrofes. Duas ou três pessoas entraram antes dela enquanto Aline limpava, com a mão desocupada, a alça da bolsa onde a caneta tinha passado sem querer. A alça ia escorregando; Aline se inclinou de lado, numa posição inovadora, e foi-se consertando, até a caneta e o caderno caírem da sua mão com os dedos entrelaçados tentando segurar alguma das duas coisas de verdade. Apanhou tudo, um tanto aborrecida e igualmente divertida, e passou pela porta. 
    O ambiente ali dentro era excepcionalmente engraçado. Uma graça divertida e encantadora; mas algo incomodava. Alguma sutileza desafinava em algum canto do lugar. Aline procurou uma mesa nem do meio, nem do canto, e sentou-se. Um garçon chegou perto, mas ela sinalizou que não, e ele se afastou para atender outra pessoa. Alguns rabiscos e tamboriladas depois, Aline estava de saco cheio de esperar e largou a cabeça na mesa. Ao erguer os olhos na direção da porta, um rapaz gesticulando exageradamente chamou sua atenção. Ele estava com algumas pessoas a uma mesa redonda no outro canto, e claramente narrava um caso. Talvez um pouco aumentado de mais. Ele virou para o lado de cá, e começou a imitar um anjo, ou algo (talvez de longe) parecido, e ela pôde ver melhor seu rosto. Que rapaz bonito, ele era. Foram os olhos verdes primeiro. Uma barba por fazer terminava o que os olhos haviam começado, e nada mais era necessário.
    À direita, a porta do bar girou pra dentro e Elias, amigo de Aline, passou por ela, praticamente saltitando. No meio do caminho, porém, ele virou na direção da mesa daquele rapaz e quando este o viu, os dois se cumprimentaram com um entusiasmo contagiante. Pareciam ser amigos que há tempos não se viam. Ficaram ali em pé, conversando por algum tempo, até que Elias girou a cabeça na direção de Aline; e ali naquela expressão descontraída ela enxergou algo a mais do que deveria estar. E nem foi uma surpresa quando o rapaz de olhos verdes anunciou algo ao pessoal da sua mesa e acompanhou Elias até a mesa de Aline. Aquele foi o primeiro contato dos dois. Foi engraçado e leve, agradável e empolgante, mas uma vírgula sutil gotejou desamparada em algum canto do lugar. Os dois se sentaram, e os três conversaram por horas a fio. Alguns que estavam lá naquela mesa foram embora; uns vieram se despedir do rapaz, outros, não. Mais umas horas se foram, até que o rapaz teve que ir. Ele se despediu e se foi, os olhos ficaram. Elias deu um tchau bastante entusiasmado, e Aline estava apaixonada. Foi tudo assim bem rápido. Se não foi, pareceu.
    Em casa, Aline sentou-se no sofá e olhou para cima. Não era uma loucura? Deu uma breve gargalhada e começou a falar algumas coisas sozinha. Até que saiu uma canção daí. Aline repetiu a primeira palavra do refrão uma centena (ou duas, ou mais) de vezes, todas com a mesma intensidade, e em todas sentia exatamente a mesma coisa, ou talvez algo ainda maior. E assim fez o restante da semana, até chegar o final do mês, e então do segundo, quinto, décimo. 
   Um ano depois, Aline cantarolava a música que compusera no último dia frio igual àquele em que estava agora, dentro do táxi. O taxímetro seguia marcando bandeira um; seu antigo vizinho trocou a marcha e virou a última curva antes do teatro. No número 520 da Avenida Gonçalves Dias ficava um teatro encantador, chamado Adélia Prado, que tinha uma escadaria surpreendentemente simples na entrada. Faltava pouco menos de vinte minutos pra começar a montagem de final de ano do curso de teatro do sobrinho de Elias. Aline pagou a corrida e viu pela última vez, nos próximos cinco anos, seu vizinho de antigamente.
   Foram os olhos verdes primeiro. Antes de entrar, Aline esbarrou numa pilastra enquanto abaixava para pegar a caneta que deixou cair. Quando virou, de costas para a entrada do teatro, os olhos verdes daquele rapaz do bar perpassaram por ela, do outro lado da rua. Estava sozinho, mas o ar notável e contagiante de paixão praticamente materializava alguém ao seu lado. Nenhum sinal de reconhecimento; nem um mais remoto. Aline seguia sua paixão; por ele. Repôs a caneta e alguma outra coisa desafinada no bolso. Avistou Elias, que vinha saltitante, feliz, extremamente radiante. Aline não pôde fazer muito, se não retribuir a sintonia do amigo. Os dois entraram no teatro. Uma cor de âmbar gotejou desamparada em algum canto ali daquele lugar; Aline estava junto.

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Texto baseado na letra/melodia de Cupid, de Sam Cooke (que, para minha surpresa, nasceu no mesmo dia que eu, mas em 1931), regravada por Amy Winehouse.


Catarina prefere o mundo


Na busca por concentração, Catarina abriu a bolsa a procura de um remédio que pudesse lhe acalmar. Tateou às cegas, mas não encontrou nada se não o mundo de tralhas que carregava por todos os lados, há um bom tempo. Olhou para cima, em busca de alguma solução. Pois foi que achou um martelo, e com ele quis se resolver. Olha, resolução, olha, resolução. Catarina ajoelhou-se por um tempo, sorriu amarelamente e se pôs a gritar. Jogou pra fora toda aquela cor que lhe estava presa à garganta, agarrada à sua pele, arranhando-lhe tudo por dentro. A cor saiu rasgando tudo, rasgou o céu que achou pela frente, rasgou o véu que cobria as coisas. Catarina olhou para um instante, e Catarina descobriu o quanto era cega. Uma gargalhada escapou de dentro dela, de um dentro tão profundo que Catarina nunca havia tomado consciência. O fundo tornou-se inda mais fundo, mas evoluiu ao raso. E Catarina gritou novamente, sem querer gritar. Seu querer submeteu-se à desordem e ao não comando, e Catarina dessa vez sorriu. Tomou um susto quando o céu caiu sobre ela, e a chuva ameaçou derreter-lhe toda. Tremendo, Catarina levantou-se sobre as pernas, mas elas fraquejaram e se puseram a cair. Antes que caisse, no entanto, com um supetão sem precedentes, o céu puxou-lhe de volta, e Catarina foi erguida às nuvens, alheia a qualquer realidade. Mas o céu não quis carregar com ele tal responsabilidade, e Catarina foi arremessada de volta ao chão, onde bateu com força no nada; e o nada se dissolveu, e foi aí que Catarina veio ao chão. Não contente, Catarina ergueu os olhos para os lados e viu alguma coisa. Não uma só: duas coisas, lado a lado, de mãos dadas ali em frente. O mundo fez silêncio, mas o silêncio fez um pequeno esforço e conseguiu gritar. Catarina ouviu o grito, e essa distração bastou para que as duas coisas sumissem. O sumiço fez-se sorriso, e esse sorriso grudou-se ao rosto de Catarina. O mundo girou, e Catarina recebeu o impacto daquilo com maus grados, preferindo ficar alheia ao movimento. Aquela percepção acalentou o mundo de Catarina, e ela percebeu que possuia um mundo. E Catarina percebeu que poderia preferir. E preferindo, agora, Catarina retornou. Agora estava apta a ficar alheia ao mundo. Poderia preferir ficar alheia às realidades. Catarina desgrudou o sorriso, assumiu qualquer postura e recitou aos ventos:

Me deixo estar,
me deixo estar estando,
estando livre para preferir,
e preferir, vou preferindo,
sem chegar e sem sair.

Se eu não saio, não chego;
chegar eu não preciso.
Mas se quiser ficar aqui,
andando, sempre irei saber.

Se o mundo vem até mim,
é porque ele precisa.
Se não precisa,
a mim ele não vem.

Vou-me quando quero,
e quero quando vou-me.
Seu real é a loucura do meu mundo.
Não tenho os pés virados para trás,
mas ando confundindo.
Meu real é a loucura do seu mundo,
que se perde ao sorrir do sol
no mundo meu.

Luardil I

Sentei na janela.
Ela apareceu.
Vi que o dia sorriu
e a lua esmoreceu.

Sorri,
sorristes,
sorri, abriu.
A lua apareceu,
o sol partiu.

À noite,
ao dia,
se foi, sumiu.
Não vem porque desceu,
não vai porque feriu.

Setenta e cinco,
seu velho senil.
A lua esmoreceu
quando o dia se abriu.

A lua não diz
o que o sol não permitiu.
Agora vai fazer
o que nunca antes se viu.

Depois do amanhecer,
veja a ponte que caiu.
O sol já vai saber
que a lua,
pra sempre,
dormiu.

Sol amarelo

[leia como quiser, entone como quiser]

Estou apaixonado,
apaixonado pela vida.
Gosto de viver, de 
viver gostando
de tudo e
de nada.
E de tudo,
porque tudo também é
nada.

Nada me entristece o
suficiente pra que eu
perca o gosto de viver.
Nada, nada.
Estou sempre alegre porque
a alegria é minha e eu
sou a alegria.

Sou amarelo como a palavra,
como o "sim", como o amarelo,
como o sol, como o "2" e
como a felicidade, que
também é amarela
como eu.

Viver é a melhor
graça que uma
graça é capaz de
ser.
Porque não tem nada
tão bom quanto
a graça que
isso é.

E é uma graça
divertida, uma
graça encantadora,
radiante
como o amarelo
que eu
também sol.

Suspiro, e meu
suspirar é leve.
Lembro agora da
minha tia que
já foi. Não
sei por que, mas
lembro agora.

E o agora é
também amarelo,
tão amarelo quanto
alegria.
Alegria que é um
nome todo prosa e
todo próprio.
Próprio de mim que
sol amarelo.

Já é mais de
duas. Olha aí ele,
o dois. Olha o dois
que é singelo, que
é segundo, minuto
é.

Minuto não, já
são duas horas,
duas e meia,
dia trinta e um.

São duas horas, e
eu aqui.
Olho pra mesa,
vej'uma flor.
Que flor é essa?
É amarela.
Como eu, como
alegria, como se
vive. Como
eu. Que
sou amarelo.

O fim de Abrantes

Abrantes, abra-te!
Abra-te antes
que eu te abra todas as portas.

E antes que eu veja
o que tem pra ver.
Ante o precipício,
antes o malefício.

Não andes em más companhias,
Abrantes.
Antes, veja.
Veja e olhe,
olhe o que tem pra ver.

Abraço-te, Abrantes.
Abraço-te.
Abraço com braço de ferro,
de ferro despedaçado.
De ferro derretido.
De ferro condoído.

E se não te abrires,
chorar que não vou. Em vão!
Ah, não entrarei
na contramão,
ante o mal.

Ante o nada,
Abrantes,

antes o nada.
Antes do nada.

Deliro, Abrantes.
Delírios da primavera.
Da primavera que veraneia,
que chora com cheiro de flor.