Sorriso cachaça

     Bem, estava bêbado e não podiam esperar muito dele. 
    Então saiu cambaleando pela rua apinhada de gente, entre os faróis ofuscantes dos carros e o barulho ensurdecedor daquela disputa surreal de sons. Cego, surdo e tonto, resolveu mergulhar de vez na doideira. Esbarrou em alguém que o empurrou com uma força assustadora - de grandes braços e feias palavras - e saiu girando e girando, sem conseguir ficar um instante sem esbarrar em algo e ser repudiado. Foi convivendo com as agressões pela avenida que parecia não ter fim, até dar de cara com o escuro e com o silêncio. Ora, estava de olhos fechados todo esse tempo! Desatou a rir, e riu por muito. E esqueceu de abrir os olhos. Caiu na gargalhada de novo, dessa vez por mais tempo. Abriu-os por fim e de fato deparou-se com o breu à frente. Demorou para focalizar uma luz distante, no fim do túnel. Ora, que túnel? Riu mais uma vez. Como estava engraçado hoje! É a cachaça. Naturalmente ele não é nada engraçado. Alguma coisa passou o rodo nessa brecha de realidade, e ele voltou a ser o bêbado divertido que sempre deveria ter sido. Seus olhos agora viam a luz com uma clareza meio duvidosa.
    Ensaiou levar um pé à frente do outro, mas a rua caiu pra esquerda e ele não pôde recusar companhia. Desaprendera a andar nesses últimos segundos? Esperou a rua descer da gangorra e pouco a pouco foi levantando. Voltou a encarar a luz, que agora parecia mais forte. Ou será que na queda fora projetado para frente sem sentir? Não saberia dizer. Resistindo a um forte e irracional impulso de cair na gargalhada, recomeçou a andar, dessa vez com um sucesso surpreendente. Não... Conclusões precipitadas; saiu andando em vários ângulos alternados, e a rua novamente o chamou para o chão. Estava começando a se irritar. Xingando alto de mais (ora, não havia ninguém ali, havia?), resolveu ir se arrastando. A luz começou a bruxulear, ou era a cachaça querendo se aparecer de novo.
      Estava chegando perto quando começou a chover. Não era possível que ele não fosse chegar à luz. Ora, é claro que chegaria. Resolveu encarar a embriaguez de frente. Parou e sentou, sem tirar os olhos da luz, e começou novamente a levantar. Aquela vontade imbecil de rir não ia embora nunca. A chuva pareceu lavar um pouco da cachaça em sua cabeça; alguma coisa dentro dele sobressaltou-se com essa percepção. Agora já podia andar de novo sem tantos estragos. E ele foi andando, de olho na luz, por um tempo que lhe pareceu longo de mais. A chuva caía cada vez mais forte, e seus passos se acertavam mais e mais à medida que aquelas gotas enormes acertavam sua cabeça. Foi como se um pára-brisas limpasse sua visão. Mais uma vez algo dentro dele reboou um lamento distante.
      A chuva caía tão forte que era difícil enxergar muito à frente. A luz começou a sumir entre as gotas, e ele começou a correr em direção a ela. Correu, correu e correu. E esqueceu. Que diabos estava fazendo? Virou-se e viu uma luz. Na verdade, duas. Fortes, ofuscantes, impiedosas e iminentes. O rapaz sóbrio foi arremessado para longe com uma força rigorosa.


No chão da rua

    Ali à beira da rua, o mundo girava. Levantou os olhos e ficou assim por um longo tempo. Carros e pessoas a ignoravam, como sempre o faziam. Arriscou e, sem mexer o resto do corpo, inclinou  a cabeça para o lado. Seus olhos fisgaram um chão distante, sujo e frio. Estava parada na borda do paralelepípedo quebrado, com os pés descalços na terra. Gorda como era e tonta como estava, certamente não conseguiria permanecer por muito naquela pose ridícula. E tudo a ignorava. Até o Sol, que aquecia o outro lado da rua - onde não havia ninguém - e não o lado em que ela estava. Algumas conclusões incomodavam mesmo depois de tão batidas.
   Incapaz de se mover, e suficientemente insignificante para ser ajudada, resolveu que seria melhor voltar a encarar o céu. Foi quando percebeu, quase de imediato, que havia uma nuvem cobrindo o Sol. Aquilo pareceu desanuviar sua mente, por um segundo demasiadamente fugaz. O banho de água suja que o ônibus deu-na puxou a vista de volta à rua e desorientou ainda mais a coitada que, cambaleando e sufocando, foi caindo e caindo, mais rapidamente do que qualquer outra pessoa. O xingamento do motorista do carro atrás do ônibus alcançou seus ouvidos como um distante "Sai do meio da rua, maluca!", mas nem por isso mais brando.
     Os cotovelos queimando travaram batalha com o chão, tentando erguê-la dali. Quando expulsou a areia dos olhos, flagrou uma mulher repreendendo o filho por roubar uma espiadela curiosa daquela coisa ali no chão. Foi obrigada a voltar a prestar atenção à batalha quando os cotovelos sofreram a primeira baixa; o direito escorregou, rolou e sangrou ainda mais. Repetindo o xingamento do motorista, tentou erguer-se de novo. Nessa e em todas as vezes posteriores um, outro ou os dois cotovelos escorregaram, e agora estavam sangrando de verdade. Era gorda e estava cansada. Suada, cada vez mais poeira e terra grudavam nela; muito disso vinha dos carros e dos sapatos das pessoas. Ou do vento, que também não gostava dela.
    Inútil e sem forças, rendeu-se àquele chão cruel e castigador. Deu um muxoxo agressivo e aleatório, gritou alguma coisa e ficou ali esparramada, sem coragem de olhar o céu.



A foda da fada - e a filosofia

Oh, oh,
não pare...
Por favor, repita
Sente aqui, repita,
Não evita,
Oh, doce fada bonita.

Ao meu lado,
então,
de supetão,
vejo um porta sabão
e logo vou com a mão,
desfrutar da textura.

Luxúria;
vê que um pouco não arde,
só não faça um alarde:
A noite cai sobre a tarde!
e em breve eles chegam.

Não grite.
Ou então me irrite:
Vá em frente e agite,
devagar; me permite,
agora, o rumo
tomar?

Atrite.
Vá até a rotunda;
dou até a segunda,
se me der sua palavra.
Profunda;
movimentos assim,
sem limite, outrossim,
dou até no capim
uma boa aparada.

Poda!
Vi daqui uma roda,
uma prova, uma corda,
de que o homem cresceu.
E como!
Como folha e semente,
imagino o seu pente,
pr'estes cachos, domar!

E como.
Como vejo o desejo
deste ensejo.
Trovejo:
A hora está a chegar!

E num insulto,
escuto
um gemido no ar.
Embranqueço a alma,
sinto um espasmo, espanto
de que todo o encanto,
que detinha ao ditar,
esvaiu-se num jato,
de um inebriante fato:

Como discursa bem!

Rapazeando da andorinha


Pelos rumores de canto,
flanco o barranco;
descia ribanceiras,
subia cordilheiras
e o rapaz,
no entanto,
me quebrava os portantos,
enfrentava cantoneiras,
me trazia bananeiras,
e sem variar,
no que te trago do acolá,
balançava esse mulambo,
traduzindo o Seu Fernando,
no que, de rima feia:
"- Vais atrás de uma sereia!,
e a cobre pelo amor."

Minha triste entonação;
capataz sem coração,
me perdoa a tentação
que traz a rima com o ão
e me traz uma andorinha,
sem ter pena da vizinha,
que sem penas, tão sozinha,
ouviu pois a zoadinha,
da triste entonação,
do roubo da andorinha,
que não tinha, coitadinha,
mais palavras pra rimar.


Na esquina do céu

{Corre que
   é quase
       tudo}

Um turbilhão de coisas na esquina 
do céu.
Eu não sei,
você viu?
Sumiu.
Abriu a porta e saiu.
Fingiu ser o recado que veio.
E passou batido no caminho.
Mas é o tal e a coisa.
Vindos atrás de nada também.
E tudo aquilo que veio
sem um sentido da semana
pulou pra trás e saltou por cima
de um turbilhão de coisas
na esquina do céu.