Ei, Barnabé!

No rodapé, Barnabé,
me joguei sem ter fé,
de que o meu quente café
alguém logo traria.


- E trouxeram?
Doido, eh, Barnabé?
Café não trazem.
Trazem água,
trazem leite,
trazem gozo,
mas o café,
o quente café,
o preto café,
o rico café,
não trazem.
Escondem, também.


- Amém?
Além!
Vintém
pra ninguém.


Barnabé:
café.
Ó: c a f é.
Ca fé.
Café é fé, Barnabé.
Café com fé.
Café.
Com fé.

O Pretérito-perfeito da Rua

Saiu pela rua,
bateu com a cabeça na lua,
rodopiou como uma perua
e caiu na navalha.


Faiscou numa ponta,
desconta! Desponta
da minha frente.
Interesso-me pelo céu,
e ao léu, de véu,
sem pé, não dou conta,
de que o mistério se encontra
pra lá,
além
de mim.

O vento e a sua cota

-
O fracasso me subiu à cabeça.
O fracasso me subiu à hic! 'beça...
O fracasso me subiu a beça.
O fracasso hic! subiu a beça...
Hic! fracasso hic! a beça.
Roarrrr...

Bocejo.
G o t e j o
e gracejo,
desejo e, no ensejo,
beijo.

O vento.
O vento de cores frias.
O vento tem cores frias, e sons distantes.
Um rosto tem dois lados;
de um deles o sol e seu calor,
               do outro, depravado,
             o furor,
       do amor desejado.


E frio.
O vento é frio.
A morte é fria.
A morte é fúria.
Mas acalma.
Acalma a alma,
Acalma.
Acalma como o vento.

Que 
caiu.
Feriu
e grunhiu,
m a s s e n t i u,
m a s p a r t i u,
m a s c a i u.
De novo.


E o motivo é sabido:
caminhar não vale a pena.
E não o sei.
Vem aqui que eu te amo;
saber, também não sei.
Falar, também não sei.
Pensar, soar, mostrar,
Dotar; só me vem um esgotar
que de falar já me desbota,
como o vento e a sua cota
de cores frias.
De cores frias,
De cores frias e furiosas,
de almas furiosas,
de almas frias,
de almas de vento frio,
do vento frio e de sons...
De sons...
Daqueles distantes; bem, bem
dis t a n tes.

A vez de Julia

     O telefone tocou ao longe. Julia abriu os olhos de repente, tonta e sonolenta, e desceu os pés da cama. Esperou o equilíbrio chegar e saiu andando do quarto; o sol passava pelos furinhos da cortina, pintando a sala de amarelo fraquinho das seis da manhã. Atravessou o cômodo e atendeu.
      - Julia?
      - Sim.
      - Você está sozinha?
      - Quem está falando?
      - Sou eu, Liane. Está sozinha?
      - Ah, Liane, olá. Estou sozinha, sim. O que houve?
      - A porta está trancada, não está?
      - Está. O que houve?
      - Ainda bem... Ainda bem. Julia, vejo você mais tarde.
      - Liane, o que está ac...?
     A ligação caiu. O estômago de Julia estava tenso de ansiedade. Foi até a porta certificar-se de que estava mesmo trancada, e constatou, com um lampejo terrível de medo, que não estava. Seu cérebro quase entrou em colapso quando forçou-se a entrar em ação, movimentando as engrenagens e reconstruindo os últimos momentos antes de dormir. Estava vendo um programa sem graça de sexta à noite na televisão, e acabou cochilando; acordou horas depois, já de madrugada, levantou do sofá, foi até a cozinha e depois voltou à sala, trancou a porta, apagou as luzes e foi deitar. Uma contração violenta em sua barriga sacudiu o corpo quando a preocupação veio: a madrugada. Passara horas dormindo no sofá, com a porta destrancada, completamente vulnerável. Burra! Mas a porta só abria por dentro. E se não a tivesse fechado direito? Antes de sentar no sofá para assistir o programa, atendera o entregador que viera trazer a pizza. Agora ela estava definitivamente com medo, e correu a virar de costas para a parede.
     Ali de onde estava, de olhos arregalados, Julia podia ver quase todo o apartamento. A sala não muito grande estava quase encoberta pela estante que fazia a divisão entre o pequeno hall de entrada e o restante da casa; podia ver a cozinha toda, graças à reforma que fizera no mês anterior, para ampliar a sala. Ofegando, Julia aproximou-se da banquinha e apanhou o abajur de flores como arma; rumou, pé ante pé, na direção da sala, cuidando para manter-se oculta da visão do quarto. Checou atrás do sofá e da estante, atrás do balcão da cozinha, atrás da mesa e no vão entre a geladeira e a parede. Não havia nada ali. Inclinou-se, e mantendo as costas contra a parede, sem girar o corpo, passou de leve a chave e trancou a porta do banheiro.
      Ainda tensa, começou a se arrastar de volta ao quarto, sem conseguir afastar os pensamentos terríveis de que pudesse ter passado todo esse tempo à mercê de algum bandido. Deslizou para dentro, agradecendo por ter o passo leve, e abaixou-se para olhar debaixo da cama. Um elefante saiu de cima dela ao ver o espaço vazio. Ergueu-se, um pouco mais tranquila, e foi checar o guarda-roupas. Porta a porta, ela deu de cara apenas com suas próprias coisas bem arrumadas e em seu lugar, como sempre havia deixado. Atrás da porta do quarto também não havia ninguém. O telefone tocou mais uma vez, sobressaltando-a. Pousou o abajur e correu a atender.
       - Liane? - disse.
       - Não, é Marco. Liane não está aí com você?
       - Não está, não. Ela me ligou agora há pouco. Marco, o que está havendo?
       - Como assim?
    - Liane me ligou preocupada, perguntando se eu estava sozinha e se a porta estava trancada.
       - Ah, merda...
       - Marco, por favor, me diga o que está acontecendo!
       - Não está acontecendo nada... Julia, vejo você mais tarde.
       Irritada e apreensiva, Julia bateu o telefone. Virou na direção da sala, indo à mesa procurar o celular na bolsa. Pegou o aparelho, e na busca pelo número de Liane, sentiu o corpo retorcer de dor quando algo irrompeu contra suas costas, queimando-a. Jogou-se para frente, fugindo do contato com o ferro em brasa, e virou-se para ver o que a tinha acertado. Com os olhos embaçados e cheios de lágrimas, a incredulidade sobressaiu muito à frente da dor da queimadura, quando viu quem estava ali, com um sorriso cruel e os olhos penetrantes de sempre.

Como (não) criar o seu bebê - O Discurso de Agradecimento

   Vocês criaram um monstro.
   Agradeço ao Sistema, à sociedade que engole, que atura e suporta. À televisão, à internet e ao Sistema, que indica, insinua e força. Agradeço à moral e às leis, que me obrigaram a conviver com a mediocridade em silêncio, todos os dias. Deixo também meus sinceros e entusiasmados agradecimentos ao governo, tão esperto e safo, que corrompeu a minha mecanização. Obrigado, convívio social, por criar a revolta, a insatisfação e o desprezo pela alienação; sem você, não teria visto e aprendido na prática os discursos alheios e os meus próprios, a respeito de todo esse entulho. Não poderia esquecer também da opressão e do poder fenomenal que a sociedade exerce sobre um indivíduo, como Durkheim ensinou: tenho fortes inclinações a concluir que esse foi o principal ingrediente da mistura terrível que resultou em mim.
   Devo, é claro, comentar com vocês que todos esses favores são vivos e acontecem a todo tempo. Não serei o Capitão Óbvio, todos sabem disso. Mas todas essas dádivas coercitivas é que me transformaram. Portanto, senhoras e senhores, talvez seja necessário repensar alguns pontos desta prática. Longe de mim querer dar palpite nessas tão bem desempenhadas práticas. Longe de mim. Mas não está funcionando. Que falha eu sou. Que falha eu e milhares de pessoas somos. Peço desculpas por não servir; talvez seja essa a explicação para a posição social em que me colocam sempre que abro a represa (que chamo de boca). Sou tão errado. Mais uma vez peço desculpas. Sou uma aberração, um bicho de sete cabeças, tão incoerente e deslocado que mereço a repulsa.
    No entanto, srªs. e srs., talvez seja necessário também que eu diga mais algumas coisas, alertá-los. Eu não sou o único. A não ser que tomem uma iniciativa mais intensa, alguma coisa vai acontecer. As outras aberrações que existem por aí (e por aqui) irão se levantar. Façamos alguma coisa. Esse marasmo arrebata a minha cabeça até as águas profundas do desespero (perdoem esse acesso de criatividade; é difícil controlar). Façamos alguma coisa. Quero me juntar a vocês, nessa tentativa de tapar os buracos que foram criados. Vamos, juntos, socar, entocar e esconder todos esses monstros que surgiram dessas falhas que não se sabe de onde vieram. Façamos alguma coisa. Precisamos fazer alguma coisa. Um monstro e uma aberração não são diferentes até que assumam suas próprias posições.