Dez pras onze

Acho que a saudade que eu tenho do ano de dois mil e onze nunca vai ser superada. Nunca, mesmo. Dizer que foi mágico é muito pouco... Extremamente pouco. É uma saudade tão estranha... Tão grande, tão pontuda, tão amarelo-reluzente. Dois mil e onze reluz tanto na minha cabeça... Reluz em formato de túnel. É preto e tem um túnel de raios amarelos, de onde vêm todos os sentimentos possíveis. E é muito confuso. É muito confuso. Mas é bom. Gosto de sentir toda a mistura de lembranças. É excelente. Dá um calorzinho, um pensamento de "Ah, poxa vida", e eu me sinto frágil; tão frágil que me agarro às paredes do túnel, sempre. E essas lembranças vêm e voltam em um mesmo segundo. Não é algo que se estenda por um dia inteiro; não chega a completar dois minutos. Mas é tão forte que, sei lá. Sei lá. Foi um ano de experiências incríveis. Conheci e reconheci um bom número de pessoas impressionantes; impressionantes dos dois extremos. Viajei pra lugares fantásticos e experimentei algo tão novo que me surpreendi com a maneira com que lidei com a situação. Me roubaram um órgão e uns muitos sentimentos e, poxa vida, foi fantástico como não havia sido até então. Em dois mil e onze estão vários dos melhores minutos que eu já vivi. Fui tão feliz e triste, tão responsável e vagabundo. Experimentei o melhor e o pior de cada um com quem estive, e acho que esse seja o ponto principal da beleza que foi aquele ano. Senti tanto cada pessoa que esteve comigo, de uma forma tão natural e simples, que acaba fazendo falta, não sei exatamente o quê. Nunca tinha sido e estado tão vivo. E foi realmente o meu ano, como eu tinha dito no final de dois mil e dez. Dois mil e onze (2011) reorganizado, pode ser 21/01, uma das datas do meu aniversário. E foi... Dois mil e onze foi meu, e eu fui dele, de um jeito que, poxa vida, sei lá.


Ei, Barnabé!

No rodapé, Barnabé,
me joguei sem ter fé,
de que o meu quente café
alguém logo traria.


- E trouxeram?
Doido, eh, Barnabé?
Café não trazem.
Trazem água,
trazem leite,
trazem gozo,
mas o café,
o quente café,
o preto café,
o rico café,
não trazem.
Escondem, também.


- Amém?
Além!
Vintém
pra ninguém.


Barnabé:
café.
Ó: c a f é.
Ca fé.
Café é fé, Barnabé.
Café com fé.
Café.
Com fé.

O Pretérito-perfeito da Rua

Saiu pela rua,
bateu com a cabeça na lua,
rodopiou como uma perua
e caiu na navalha.


Faiscou numa ponta,
desconta! Desponta
da minha frente.
Interesso-me pelo céu,
e ao léu, de véu,
sem pé, não dou conta,
de que o mistério se encontra
pra lá,
além
de mim.

O vento e a sua cota

-
O fracasso me subiu à cabeça.
O fracasso me subiu à hic! 'beça...
O fracasso me subiu a beça.
O fracasso hic! subiu a beça...
Hic! fracasso hic! a beça.
Roarrrr...

Bocejo.
G o t e j o
e gracejo,
desejo e, no ensejo,
beijo.

O vento.
O vento de cores frias.
O vento tem cores frias, e sons distantes.
Um rosto tem dois lados;
de um deles o sol e seu calor,
               do outro, depravado,
             o furor,
       do amor desejado.


E frio.
O vento é frio.
A morte é fria.
A morte é fúria.
Mas acalma.
Acalma a alma,
Acalma.
Acalma como o vento.

Que 
caiu.
Feriu
e grunhiu,
m a s s e n t i u,
m a s p a r t i u,
m a s c a i u.
De novo.


E o motivo é sabido:
caminhar não vale a pena.
E não o sei.
Vem aqui que eu te amo;
saber, também não sei.
Falar, também não sei.
Pensar, soar, mostrar,
Dotar; só me vem um esgotar
que de falar já me desbota,
como o vento e a sua cota
de cores frias.
De cores frias,
De cores frias e furiosas,
de almas furiosas,
de almas frias,
de almas de vento frio,
do vento frio e de sons...
De sons...
Daqueles distantes; bem, bem
dis t a n tes.

A vez de Julia

     O telefone tocou ao longe. Julia abriu os olhos de repente, tonta e sonolenta, e desceu os pés da cama. Esperou o equilíbrio chegar e saiu andando do quarto; o sol passava pelos furinhos da cortina, pintando a sala de amarelo fraquinho das seis da manhã. Atravessou o cômodo e atendeu.
      - Julia?
      - Sim.
      - Você está sozinha?
      - Quem está falando?
      - Sou eu, Liane. Está sozinha?
      - Ah, Liane, olá. Estou sozinha, sim. O que houve?
      - A porta está trancada, não está?
      - Está. O que houve?
      - Ainda bem... Ainda bem. Julia, vejo você mais tarde.
      - Liane, o que está ac...?
     A ligação caiu. O estômago de Julia estava tenso de ansiedade. Foi até a porta certificar-se de que estava mesmo trancada, e constatou, com um lampejo terrível de medo, que não estava. Seu cérebro quase entrou em colapso quando forçou-se a entrar em ação, movimentando as engrenagens e reconstruindo os últimos momentos antes de dormir. Estava vendo um programa sem graça de sexta à noite na televisão, e acabou cochilando; acordou horas depois, já de madrugada, levantou do sofá, foi até a cozinha e depois voltou à sala, trancou a porta, apagou as luzes e foi deitar. Uma contração violenta em sua barriga sacudiu o corpo quando a preocupação veio: a madrugada. Passara horas dormindo no sofá, com a porta destrancada, completamente vulnerável. Burra! Mas a porta só abria por dentro. E se não a tivesse fechado direito? Antes de sentar no sofá para assistir o programa, atendera o entregador que viera trazer a pizza. Agora ela estava definitivamente com medo, e correu a virar de costas para a parede.
     Ali de onde estava, de olhos arregalados, Julia podia ver quase todo o apartamento. A sala não muito grande estava quase encoberta pela estante que fazia a divisão entre o pequeno hall de entrada e o restante da casa; podia ver a cozinha toda, graças à reforma que fizera no mês anterior, para ampliar a sala. Ofegando, Julia aproximou-se da banquinha e apanhou o abajur de flores como arma; rumou, pé ante pé, na direção da sala, cuidando para manter-se oculta da visão do quarto. Checou atrás do sofá e da estante, atrás do balcão da cozinha, atrás da mesa e no vão entre a geladeira e a parede. Não havia nada ali. Inclinou-se, e mantendo as costas contra a parede, sem girar o corpo, passou de leve a chave e trancou a porta do banheiro.
      Ainda tensa, começou a se arrastar de volta ao quarto, sem conseguir afastar os pensamentos terríveis de que pudesse ter passado todo esse tempo à mercê de algum bandido. Deslizou para dentro, agradecendo por ter o passo leve, e abaixou-se para olhar debaixo da cama. Um elefante saiu de cima dela ao ver o espaço vazio. Ergueu-se, um pouco mais tranquila, e foi checar o guarda-roupas. Porta a porta, ela deu de cara apenas com suas próprias coisas bem arrumadas e em seu lugar, como sempre havia deixado. Atrás da porta do quarto também não havia ninguém. O telefone tocou mais uma vez, sobressaltando-a. Pousou o abajur e correu a atender.
       - Liane? - disse.
       - Não, é Marco. Liane não está aí com você?
       - Não está, não. Ela me ligou agora há pouco. Marco, o que está havendo?
       - Como assim?
    - Liane me ligou preocupada, perguntando se eu estava sozinha e se a porta estava trancada.
       - Ah, merda...
       - Marco, por favor, me diga o que está acontecendo!
       - Não está acontecendo nada... Julia, vejo você mais tarde.
       Irritada e apreensiva, Julia bateu o telefone. Virou na direção da sala, indo à mesa procurar o celular na bolsa. Pegou o aparelho, e na busca pelo número de Liane, sentiu o corpo retorcer de dor quando algo irrompeu contra suas costas, queimando-a. Jogou-se para frente, fugindo do contato com o ferro em brasa, e virou-se para ver o que a tinha acertado. Com os olhos embaçados e cheios de lágrimas, a incredulidade sobressaiu muito à frente da dor da queimadura, quando viu quem estava ali, com um sorriso cruel e os olhos penetrantes de sempre.